sábado, maio 31, 2008

Bom fim-de-semana!

Há onze dias que o tempo em Bruxelas está de bonança. Incluiu umas horitas de chuva aqui e ali, mas logo desanuviou e nunca arrefeceu demasiado. Hoje mesmo, não estando um sol esplenderoso, não chove e está uma temperatura amena.
Este boletim meteorológico prova como já começo a ser uma bruxelense de gema. Falar do tempo é um tema que merece sempre destaque.
Não será por acaso. Temos motivo para ir arejar. No Châtelain as esplanadas andam cheias até às tantas. Assim de repente nem me lembro da última vez que fui ao cinema. Parece que vai ser esta noite se alguém tiver coragem de se fechar durante algumas horas com noite tão boa.
Estas voltas pelo mundo têm sempre um efeito positivo, de entre vários: aprecio melhor Bruxelas no regresso.
Vou gozar o fim-de-semana! Fiquem bem.
P.S.: E o carro ficará o mais possível na garagem. Andar a pé, partilhar carro com cara metade/amigos, transportes públicos e mai nada.

quinta-feira, maio 29, 2008

Macau em Palmela


Sim, assim mesmo como se lê no título. Cozinha macaense na pousada de Palmela, no Castelo. Para quem estiver em Portugal e tiver curiosidade dê um salto ao Castelo e aos acepipes macaenses. Vale a pena, acreditem!


Oiçam a descrição do evento no programa Evasões da Tsf (do dia 28/05) clicando aqui.


Até dia 1 de Junho.

quarta-feira, maio 28, 2008

As minhas descobertas preferidas na Internet

Os caminhos que utilizo nas minhas deambulações cibernéticas são vários. Desta feita foi pelo i-tunes que descobri a UCTV

A UCTV é o site da Universidade da Califórnia com vídeos e podcasts com entrevistas de inúmeros académicos, especialistas nos temas mais variados. Como é hábito comigo, já se está a tornar num vício...a que me entrego sem resistência.

Deixo-vos estes três exemplos que já vi e de que gostei:

Da série "Conversations with History: The moment of Empire", entrevista de Amy Chua, Professora de Direito de Yale.

Da série "Conversations with History: The Emergence of New China", entrevista de John Pomfret, jornalista do Washington Post especialista da China.

Da série "Artists on the cutting edge":"One Hundred Secret Senses: a reading by Amy Tan"


Que lindo que é o canto coral

Lê-se a seguinte passagem no relatório da Amnistia Internacional sobre a China:

"Repression of spiritual and religious groups

Millions of people were impeded from freely practising their religion. Thousands remained in detention or serving prison sentences, at high risk of torture, for practising their religion outside of state-sanctioned channels. Falun Gong practitioners, Uighur Muslims, Tibetan Buddhists and underground Christian groups were among those most harshly persecuted.
During the year over 100 Falun Gong practitioners were reported to have died in detention or shortly after release as a result of torture, denial of food or medical treatment, and other forms of ill-treatment.

Underground Protestant house church meetings were frequently disrupted by the police, participants often detained and beaten, and the churches sometimes destroyed.

Hua Huaiqi, a Beijing-based house church leader, was sentenced in a closed trial in June to six months in prison for obstructing justice. He was reportedly beaten in jail. His 76-year-old mother, who protested against her son’s treatment, was herself sentenced to two years in prison for destruction of public and private property after her cane struck the headlight of an oncoming police car.

Members of China’s unofficial Catholic church were repressed. An elderly Catholic bishop, Han Dingxiang, died in custody under suspicious circumstances after more than 20 years in jail. He was quickly cremated by local authorities.
Religious adherents of all beliefs had difficulty getting legal counsel, as lawyers willing to take up such sensitive cases were often harassed, detained and imprisoned."
Ouvido por mim da boquinha de chineses da RPC em coro: "Ah na Bélgica há liberdade religiosa? É como na China".
Para ler o relatório da AI na íntegra clicar aqui.
Para ler o relatótio da AI relativo a Portugal clicar aqui.

sábado, maio 24, 2008

Impressões depois do regresso

Tendo já escrito sobre o aspecto físico e gastronómico do que vi falta escrever sobre o que mais me marcou - as pessoas.

Começo pelo princípio. Chego a Macau e descubro que o que eu achava que eram os macaenses não é o que eles acham que são os macaenses. Eu explico: para mim macaenses eram os naturais de Macau . Para eles macaenses são os mestiços chinês/português, depois há os chineses macaenses e os portugueses macaenses. Ok. Registei.

Numa terra tão pequena aquilo soou-me a esquisitice a mais, mas a história é deles e aquela será a melhor designação para a realidade em que vivem.
Macau tem meio milhão de habitantes, desses uma minoria são mestiços, a maioria é de origem chinesa, há alguns portugueses e emigrantes sobretudo filipinos e chineses do continente. Os filipinos predominam na hotelaria e restauração assim como nos trabalhos domésticos. Pude conhecer vários no hotel onde estava e para além de bons profissionais eram muito simpáticos.
No entanto, nem sempre são bem vistos pela população. As atitudes variam. Da aceitação claro, à rejeição quando são vistos como concorrência laboral mais barata. Na mini classe luso/mestiça pude ouvir comentários dignos duma má telenovela brasileira a propósito dos serviços domésticos que prestam as filipinas. Pelos vistos há quem queira serviço barato/explorador e ultra profissional. Fiquei com a impressão de que estas pessoas não poderiam viver noutro sítio que não Macau, uma espécie endógena e não adaptável. Criticam Portugal do que ouvem dos familiares que lá vivem, criticam Hong Kong, chineses continentais, filipinos, o governo macaense (mas não se mexem para mudar nada) e o diabo a sete, safa! Lá critcar criticam e imprensa não é excepção, parecendo bastante livre embora não tão contundente como a de Hong Kong.
Sobre os emigrantes da China continental também não consegui ouvir loas. Há milhares de chineses do continente a trabalhar em Macau na tentativa de melhorar a vida. Na boca dos macaenses são porcos, brutos, rudes blá,blá,blá. Alguns até serão, mas é dar-lhes tempo, digo eu. Há também muitos chineses ricos que vêm jogar nos casinos. Esses compram os apartamentos novinhos em folha que brotam do chão macaense como cogumelos. Resultado: inflacção dos preços do imobiliário e decréscimo do poder de compra dos macaenses que não têm visto os seus salários aumentarem em consequência.
Do meu contacto com os jovens registei uma grande ignorância sobre a China mas uma abertura e flexibilidade em geral. Curiosamente a RPC e os media macaenses exaltam o grande patriotismo de Macau em relação à China. Será a técnica da publicidade? De exaltar as piores características do produto...fiquem sem perceber. Onde senti curiosidade foi nos jovens chineses do continente que encontrei, sempre mortinhos por uma conversinha em inglês e cheios de vontade de ver mundo.
O contacto com os chineses continentais foi o meu primeiro contacto com A China. A verdade é que Macau e Hong Kong são agora parte da China, mas não são verdadeiramente "China", não em termos de regime e cultura. Isto foi me dito por chineses antes da minha ida e de facto pude constatá-lo. Ainda que para uma europeia aquilo já pareça muito asiático o contacto com alguns chineses da RPC permitiu-me perceber a diferença.
Os jovens como disse são curiosos e espontâneos num contexto informal. Acho que a curiosidade foi mesmo a característica que mais me chamou à atenção. Os chineses continentais mais velhos permitiram-me vislumbrar o que é viver num regime totalitário. Nunca tinha tido tal experiência. Parecem cassettes de propaganda. Nunca percebi se diziam o que pensavam ou o que tinham de dizer de qualquer forma. Já esperava que tivessemos perspectivas da realidade muito diferentes. O que me chocou foi a falta de auto-análise, de auto-crítica. Ao ouvi-los falar a China é um exemplo de tudo. Conseguiam justificar inclusive os massacres de Tianamen. Nunca tentei contrapor demasiado, receei prejudicar algum deles, sabe-se lá quem ouve e o que lhes poderá acontecer.
Estaria talvez a imaginar coisas, mas o estado de espírito era este. Nunca tinha vivido assim. Escusado será dizer que jamais poderia viver num regime destes, é sufocante. Muitos há que ignoram tudo e falam da comida, outros há que proferem afirmações tão estranhas que não sabemos se estão a tentar dizer alguma coisa nas entrelinhas ou se aquela é mais uma pérola.
Num exercício de auto-crítica feito no final da semana para identificar lacunas não lhes arranquei uma frase com conteúdo, só banalidades. Já os macaenses era outra história. Abertos , auto-críticos, muito mais conscientes das suas lacunas, ou pelo menos com menos pruridos em assumi-las frente aos outros. Há uma certa arrogância em proclamar-se o máximo e não conseguir admitir erros do passado. Felizmente em Hong Kong há uma imprensa arejada onde se podem ler artigos muito pertinentes e destemidos sobre a realidade chinesa. Já para não falar nos artigos escritos por certos intelectuais chineses que defendem a democracia. Entratanto enquanto lá estive foi preso mais um jornalista chinês , na RPC. Em Macau foi detido um homem por ter escrito num chat como é que poderiam apagar a chama olímpica. Tudo isto é ambíguo. Será o resultado duma fase transitória para um regime mais democrático ou apenas um bicho estranho e híbrido?
Quem vai a Macau em visita de turismo não notará provavelmente nada disto. Verá o charme da cidade, da aldeia piscatória de Coloane, a delícia culinária, a simpatia do cidadão comum (apesar da má fama de que gozam os cantoneses junto doutros chineses). Ficará estarrecido com o kitsch dos casinos. O kitsch esse grande senhor em terras orientais. A verdade é que a tudo nos habituamos. Ao fim de 3 semanas até já olhava de outra forma para o Grand Lisboa ou para o Sands (outra coisa inexplicável, um casino/hotel que mais parece um terminal de aeroporto foleiro) ou ainda para o Fisherman's Wharf - uma espécie de Disneylândia ou algo assim, com cópias duma aldeia minhota, de Itália, Amsterdão onde se pode ir comer. Tudo isto nos choca, mas vistas bem as coisas quando é que muitas daquelas pessoas poderiam visitar os verdadeiros locais?
O mais curioso é o paradoxo. A China diaboliza o Ocidente (que para eles são os EUA, estamos feitos!!) e destrói o seu magnífico património histórico que substitui por cópias da Europa do séc XIX (bairros inteiros construídos a imitar Paris, Londres, mansões da época...). Abre a sua economia,torna-se cada vez mais interdependente e estimula o nacionalismo. É muito estranho, mentiria se não o dissesse. Mas é o caminho deles. Do nosso lado também há preconceitos e ignorância a rodos sobre o que é a China...e medinho e gula pelo mercado que se abre.
E da minha parte uma curiosidade sempre maior. Fiquei a saber que esta descoberta terá de ser gradual. Isto foi só Macau, imaginemos a China a sério... ficará para Outubro.

sexta-feira, maio 23, 2008

A propósito de gerações

Estava aqui a ver o programa sociedade civil sobre os jovens, seu interesse pela política e conhecimentos da história recente (programa do dia 16 de Maio). O mote do programa foi uma sondagem feita pela Universidade católica a pedido do presidente da República que se manifestou chocado com a ignorância dos jovens.

O que ouvi recordou-me a sábia reflexão duma colega que por sinal já tem quase 60 anos: a responsabilidade pelo que se passa agora é dos pais, é dos avós. Queriam gerações hiper-cultas e motivadas politicamente depois de décadas de passividade política? Os 40% de analfabetos em 74 tiveram filhos. O que esperavam desses filhos? Talvez sejam pouco informados e participativos mas comparativamente sê-lo-ão mais que os seus pais.


Tenho amigos de idades variadas embora predomine a minha, i.e. geração dos 30.

É injusto generalizar (sublinho e resublinho), mas de acordo com a minha experiência, a geração de 40/50 arrota muitas postas de pescada sobre o que está mal, mas tem tiques de regime autoritário. A dos 20 é mais articulada, sabe menos mas tem um comportamento mais aberto e tolerante. Olhem, não é perfeito, mas prefiro.

Vou escolhendo as minhas amizades em todas as gerações, é que a estupidez e inteligência não escolhem idade.

quarta-feira, maio 21, 2008

Acabou-se...

Regressei ontem de Macau. Foram 23 dias. Foi fascinante.
Dito isto, soube-me tão bem voltar, este ar seco e leve, a luz do Sol em Bruxelas, a minha cama, uhmmmm, o táxi carinho,carinho, a minha comidinha com menos sal, o cheirinho do meu espaço, é tão bom estar em casa!
Desde o último post muita coisa se passou. O terramoto de Sichuan e respectiva onda de solidariedade. A abertura jornalistica na China que a todos tem espantado. A comoção natural por tamanha tragédia, a mobilização da sociedade civil chinesa e dos territórios autónomos. No South China Morning Post , jornal de Hong Kong que me habituei a ler todas as manhãs, os comentários sobre a nova atitude das autoridades chinesas em relação á cobertura mediática do terramoto tentam ou esperam vislumbrar um ponto de não retorno em direcção a uma maior liberdade de expressão. Um aprender com os erros e lições do passado. Já a Time desta semana tem um artigo de opinião que vai no mesmo sentido. Eu não sei o que pensar, mas desejo sinceramente que assim seja. Veremos se não é só wishful thinking. É que tanto artigo , tanta cobertura televisiva também têm contribuído para a imagem do governo chinês em casa e sobretudo fora de fronteiras. Os chineses tem uma obsessão com o que o mundo pensa deles.E querem que pense bem...a bem ou a mal... Em boa verdade não estão sózinhos nesse barco...
Nestes últimos dias da estadia houve ainda mais um fim-de-semana em Hong Kong e o resto da minha experiênncia profissional em Macau.

De toda esta estadia regressei com sentimentos ambíguos. Nada de preocupante, eu costumo ser assim. Soube-me bem entrar noutra cultura, ver outras formas de vida, outras opiniões, outras gastronomias.
Comecemos pela gula.

A gastronomia chinesa foi logo desde o início motivo de júbilo. A cozinha chinesa não é conhecida na Bélgica e Portugal. Em Paris e Londres ainda se pode ter uma ideia ténue. Mas em Portugal e na Bélgica não há nada que se assemelhe ao que é verdadeiramente a cozinha chinesa. A sua riqueza e sabores variam consoante a região. O que eu comi de Yum chá (dim sum ao almoço), de chá com bolinhas de tapioca, de bolachinhas, congee, noodles, garoupa, vieiras, galinha e porco de inúmeras formas, não cabe aqui a descrição. Pudim de manga e sago (ainda tenho de perceber o que isto é). E bolinhos de massa de arroz, já tenho saudades e ainda agora voltei. E um bendito pão-deló muito suave...juro que estou a salivar


A cozinha chinesa consiste na realidade em várias cozinhas tão numerosas como as regiões e comunidades chinesas. Pode ser prática e descontraída ou sofisticadíssima. Comer é um desporto nacional. Na região em que estive predomina a cozinha cantonesa que à excepção dos dim sum e sopas de noodles, até nem é das minhas favoritas. Mas encontra-se de tudo . Macaenses e Hong Kongueses adoram inclusive cozinha thai e japonesa.


O primerio choque ao chegar a uma cidade asiática é a concepção de meio urbano. Longe de mim, portuguesa, achar que posso dar lições de urbanismo, mas a urbanização asiática tem uma característica que choca qualquer europeu: total indiferença ou até mesmo desprezo pelo passado histórico. Macau é uma excepção...relativa. O património arquitectónico macaense recebeu o estatuto de património mundial da Unesco. Ainda bem, espero que assim se salve. Para além disso, penso que começa a surgir uma consciência cívica de defesa desse património. O peso da sua voz face à especulação imobiliária é que é fraquinho. E especulção imobiliária é o nome neutro que podemos chamar ao fenómeno que permitiu que se construíssem alguns dos horrores mais incríveis, capazes de rivalizar em grande estilo com o kitsch de Banguecoque. O melhor exemplo será o nabo com verdura ramalhuda que dá pelo nome de Grand Lisboa. Um enorme nabo com respectiva ramagem (as nabiças, portanto) que é casino e hotel do senhor Stanley Ho. O portento tem a meu ver uma grande vantagem: ser visto de longe o que me permitiu inúmeras vezes recuperar o Norte quando já me achava perdida. O nabo pretende ser uma flor de lótus, mas aquilo é a imagem chapada dum nabo ou como diria o Sr. A quando o viu pela primeira vez: C'est quoi ce poirot?! É verdade, já disse que é todo dourado? Pois... Mas palavras para quê, o melhor é ver :



Felizmente Macau é muito mais do que estas construções e no regresso senti uma saudadezinha. Para além de que Macau é dos macaenses e se eles entendem que aquilo é o que querem pois assim é que deve ser. A questão é se os macaenses têm alguma palavra a dizer... Mas para mais impressões remeto para o próximo post. Vou desfazer malas.

segunda-feira, maio 12, 2008

Deambulando por Macau III

Ontem, Domingo achei que merecia levantar-me tarde. Quando a preguiça me deixou tomar banho e vestir saí e fui até ao templo à deusa A-Ma. Fica na outra ponta de Macau, frente ao mar, ou será ao rio, tenho de verificar.

Supõe-se que o nome Macau derive precisamente deste templo ou melhor da deusa que dá nome ao templo. Esta hipótese diz que os primeiros navegadores ao chegarem à baía deste território terão perguntado onde estavam ou algo assim e responderam-lhes "A-Ma gao" , isto é, baía de A-Ma, porque nesta baía se encontrava já na altura um templo à deusa A-Ma, padroeira dos marinheiros.

O templo que vemos hoje não será o da altura mas é bastante antigo. É constintuído por vários altares repartidos em socalcos pela encostazinha duma mini-colina. Predomina a côr vermelha, os incensos pendurados no tecto, o cheiro, várias estátuas da deusa A-Ma e de outros deuses.

Dali segui a pé por ruas e ruelas numa descoberta de Macau que me levou de surpresa em surpresa. Primeiro fui até à praça Lilau em frente à casa do Mandarim, antiga casa chinesa, que infelizmente, para mim, está fechada para restauração. A praceta Lilau é linda. Rodeada de casinhas, é pequenina, com algumas árvores, velhotas e miúdos, elas a descansar eles a brincar. Dali subi até à Ermida da Penha, que em si não tem grande graça, mas que tem um belo miradouro sobre Macau, a torre de Macau, a casa do cônsul português, as pontes...

Desci a penha e segui até à Igreja de São Lourenço, depois a de Santo Agostinho, colégio de São José, Teatro D. Pedro V e biblioteca de Macau. Para além da beleza destes monumentos, está a vida e graça das ruas que levam a eles. Lojinhas e becos com portas chinesas, varandas e varandins gradeados cheios de plantas e roupa. Gente que surge de todo o lado, muitas pastelarias que vendem uns bolinhos estilo pão-de-ló que são muito bons. Aqui e ali um altarzinho com incenso, a calçada, os cheiros a comida chinesa. E assim cheguei sem me aperceber à praça do Leal Senado, segui depois para a rua da Felicidade, cheia de casas chinesas antigas (será a única, a última?). Um boticário de medecina chinesa, vários restaurantes com tanques com peixe vivo onde se "pesca" o jantar do clientes. Mais boticários, pastelarias, restaurantes minúsculos que nem parecem restaurantes mas com fila à porta.

Entretanto a noite caiu e eu dou por mim na rua das Estalagens a regressar. Passo em frente a um templo, um Pagode, portas pintadas, telhado imponente. Sigo e chego ao centro outravez. Regresso lentamente a pé, chego ao hotel tarde demais para a peça do Grupo de teatro Dóci Papiaçam de Macau. Mas valeu o passeio.

E agora, vou visitar Coloane que fica na outra margem juntamente com a ilha da Taipa.

Veremos se tenho inspiração para escrever o que vi.

Deambulando por Macau II

Este meu deambular não se limitou a museus e espectáculos. No Sábado quis o destino que o meu caminho cruzásse o duma senhora norueguesa que regressava da Austrália. Tendo parado uns dias em Hong Kong decidiu dar um salto a Macau. Tinham-lhe falado muito do Venetian e perguntou-me se era longe. Eu ainda não tinha ido lá, sabia que devia ser a uns 15 min. de táxi. E como toda a gente me pergunta se ja o vi e digo sempre que não aproveitámos para ir juntas.

Bom, o Venetian. Nem sei bem como descrever aquilo. O Venetian é um mega-hotel, shopping center, mega-casino que fica na ilha da Taipa. Uma cópia de certas partes de Veneza com respectivos canais em ponto mais pequeno, tendo no seu centro um bloco imenso de vidro bronze e azul, de vários andares que devem ser os quartos do hotel.

Tudo aquilo é bling bling à americana. Veneza transformada num parque de diversões. Os "canais de Veneza" encontram-se cobertos por um céu eternamente azul onde esvoaçam algumas nuvens diáfanas numa luz de fim de tarde. O ar cheira a perfume e o rés-do-chão das casinhas "venezianas" são lojas e lojas de marcas de luxo predominantemente ocidentais. E completamente às moscas.

Nos canais, de água límpida e baixa vêem-se moedas atiradas pelos turistas e passam gondolieri que cantam O Sole mio e me perguntam em italiano se sou italiana, nope, Portogallo, grito-lhes, a única coisa italiana ali são eles ...e nem isso se calhar...

O andar do casino é um hino ao dourado, alcatifas e muito estuque dourado. Há imitações grotescas de frescos nos tectos e restaurantes de design impecável a toda a volta. O lobby do hotel imita um palazzo italiano, inclusive com duas grandes reproduções de imagens da Sereníssima.

Podia tentar ser politicamente correcta. Mas se vos disser o que senti, aquilo não é feio mas é triste. É grotescamente triste. Uma país com 5000 anos de história, para quê aquilo. E depois Veneza ,a bela e autêntica Veneza cheira a maresia nos dias sim e a podre nos dias não, o ar é húmido, os gondolieri não cantam e olham-nos com enfado, os palazzo têm a pintura decadente. Veneza é decadente, deliciosamente decadente. Ver uma tentativa de Veneza asséptica deu-me quase vontade de chorar. As coisas sem alma são assustadoras.

Conclusão: o Venetian ficou visto, até nunca mais.

Apanhámos um táxi e levei a senhora norueguesa a visitar o Leal Senado, as ruelas que levam às ruinas de São Paulo, a rua da Felicidade. Disse-me que adorou e que sou uma excelente guia. É que eu de facto gosto muito daquela zona e quando se gosta... A Paula, assim se chamava, apanhou o ferry de volta para Hong Kong e eu voltei ao hotel. É tão bom quando os nossos caminhos cruzam os de alguém, quando se descobrem afinidades. Foi bom ter companhia divertida e interessante durante várias horas...aqui por Macau a hospitalidade de quem oficialmente me recebe têm andado tímida, digamos assim...


Deambulando por Macau I

Hoje é feriado em Macau. É dia do Buda, dia do seu nascimento. Isto significa que tivemos um fim-de-semana prolongado.

Decidi ficar por Macau e conhecer melhor o território.

Visitei o Museu de Macau e o Museu de Arte de Macau. O primeiro encontra-se na colina do forte ao lado das ruínas de São Paulo. Está mesmo no cimo da colina, dentro das muralhas do forte. Apresenta a história do território, antes da chegada dos portugueses e depois. Gostei muito. Gostei sobretudo de ficar a saber quais os hábitos das populações chinesas, como viviam, onde, o que compravam e vendiam, como casavam. Como se misturaram as duas culturas dando origem aos macaenses.

O Museu de arte de Macau fica perto da Doca dos pescadores e da estátua à deusa Kum Ian. É um edifício de arquitectura contemporânea, bastante giro. Muito bonito comparado com os horrores sob forma de hotéis que têm sido construídos. Visitei a exposição da VII bienal de Macau. Há criatividade por estas bandas, muita e recomenda-se.

No mesmo museu está patente uma exposição com obras emprestadas pelo Louvre com arte da Grécia clássica. Chama-se "Platão em terras de Confúcio". Um paralelismo entre a civilização que criou a Maratona e os Jogos Olímpicos e a civilização e filosofia de Confúcio. Pareceu-me uma excelente ideia com os Jogos daqui a pouco em Pequim. A exposição estava às moscas. E não será por falta de publicidade em toda a cidade. Nos últimos andares uma exposição de fotografia de dois fotógrafos macaenses, Lei Chiu Vang e Ou Ping sobre a Macau da primeira metade do séc. XX. Que diferença!! E que belas fotos.

No Sábado à noite fui assistir a um espectáculo de dança clássica e contemporânea da Escola de dança do Conservatório de Macau no Centro cultural de Macau. O Centro cultural de Macau fica ao lado do Museu de Arte, aliás formam um todo.

O espectáculo de dança fez-me recordar os meus anos de dança clássica, os espectáculos no fim do ano com as famílias presentes a apoiar o resultado do esforço dum ano inteiro. As várias composições tinham uma qualidade muito variável (como no meu tempo, aliás). Oscilando entre o contemporâneo, o clássico (chatinho) e a dança oriental. Foi muito interessante ver o esforço criativo e o empenho dos jovens bailarinos. A sala estava cheia, europeus ou ocidentais uma meia-dúzia.

No pequeno auditório do mesmo centro cultural decorria Sábado e Domingo uma sátira em patuá dum grupo que tenta manter vivo este falar macaense. Acabei por não poder ir ver e fiquei cheia de pena. Deixo aqui o link para um post do blogue Bairro do Oriente que faz uma descrição e apreciação do espectáculo do Grupo de Teatro Dóci Papiáçam di Macau.

E depois os preços...o bilhete mais caro a 150 patacas que são 12,5€, nem dava para acreditar quando penso no que pago em Bruxelas. Eu bem sei que estas comparações não levam a lado nenhum, o nível de vida é bastante diferente, mas ... não deixa de ser uma surpresa agradável.

sexta-feira, maio 09, 2008

De como somos todos bastante parecidos

Quantas vezes falamos de turistas asiáticos que vemos nos nossos países como sendo chineses ou japoneses independentemente de o serem ou não? Para nós os traços asiáticos são todos muito parecidos e não distinguimos entre chineses, coreanos, japoneses, vietnamitas etc... Quando o contacto com estes povos se intensifica começamos a ver as diferenças. Conhecer melhor o outro significa também vê-lo melhor, com mais pormenores.

Esta é uma regra que se aplica a todos os povos. Para muitos asiáticos nós europeus somos todos parecidos independentemente de sermos louros, morenos de olhos claros ou escuros. Já o sabia graças à mãe da minha cara metade. Tal como acontece connosco, os que conhecem bem as nossas fisionomias também reconhecem nelas várias diferenças.

Mais uma prova deste facto foi o que se passou hoje ao jantar. Uma das empregadas de mesa que me serviu, amabilíssima e muito simpática como sempre, perguntou-me se eu era uma tal de Daynara Torres. Eu disse que não e nem sabia quem era a pessoa em questão. Disse-me então que estavam cheios de curiosidade pois achavam que eu era ela, tive de desiludi-la... Ela garantiu-me no entanto que ela e os outros empregados me achavam muito parecida, daí a dúvida. Fiquei de ir ver quem era na Net.

Pois é... comecemos por dizer que a moça tem olhos azúis e eu não...

Atitude diplomática...

ou a pachorrinha que é precisa para aturar estes gajos!

Ora bem, por onde vou começar?

Isto de Macau ser uma democracia tem muito que se lhe diga. O pessoal de cá diz o que quer sobre a administração macaense, sobre a chinesa já é outra história.

Já tive de ouvir que a China no início da década de 50 libertou o Tibete com o envio de vários milhares de soldados que rapidamente derrotaram o Tibete. E que a CIA dá formação militar a monges tibetanos que depois lança de para-quedas sobre o território tibetano. Quando ouvi isto tive de morder os lábios para não desatar a rir com a imagem dos monges com as sainhas a esvoaçar quais merengues insuflados Everest abaixo.

A sanha que alguns têm ao "ocidente" é grande e não a disfarçam muito. Pergunto se será esta a proverbial diplomacia chinesa que eles tanto apregoam? Para eles e eles são gente que estudou, não são o comum dos cidadãos, o Ocidente é um todo uniforme. É assim como se Japão, China, Coreia e Tailândia fosse tudo igual. Qual UE com mais de 50 anos de paz, qual Suécia, Irlanda com posições de neutralidade históricas. Qual França contra a invasão do Iraque e assim por diante.

Somos essencialmente uns impulsivos, não percebemos nada de relações diplomáticas, só sabemos invadir e atacar ao contrário dos chineses que pugnam pela promoção do diálogo entre as partes e menosprezam o uso da força. Para nós a Paz é um breve momento de felicidade que se segue à guerra. Juro que ouvi isto. Porquê breve, não me perguntem...

O que acho caricato no discurso é a auto-promoção, no fundo há quem pense assim em todas as regiões do mundo, mas dizê-lo desta forma na cara dos outros mostra como não se questionam nem um bocadinho. Tenho a impressão de que a crítica e auto-crítica não são lá muito praticadas.

Ora bem, que muitos países do ocidente tiveram e têm atitudes belicistas cuja táctica de defesa é o ataque parece-me óbvio, nem tão pouco é segredo. Não me parece no entanto que esta seja uma atitude exclusiva do "Ocidente". Agora que a China promove o diálogo e as soluções sem recurso à força é no mínimo um insulto a todos os presos e exilados por crime de liberdade de expressão, aos tibetanos, aos mais de 70 milhões que morreram durante a revolução cultural na China, de facto não estavam em guerra, oficialmente, mas "promoção" do diálogo talvez não seja a expressão mais ...adequada...

Há até um sorriso mal disfarçado na cara de quem acha que as economias ocientais (o que é isto, Europa, EUA, vá-se lá saber) estão à beira do colpaso. Pergunto-me se já ouviram falar da Finlândia, Canadá , Holanda...

Eu detesto atitudes de superioridade que tanto se ouvem nos países ditos desenvolvidos mas este tipo de discurso não é melhor .

E assim como critico a primeira atitude também critico a segunda.

Entretanto, valham-me doses de paciência e diplomacia.

P.S.: O blogue O Protesto é um blogue de Macau que descobri e cuja leitura recomendo.

quarta-feira, maio 07, 2008

Hong Kong

Hong Kong foi como eu esperava mas com cheiros, calor e humidade. Fascinam-me grandes cidades que conseguem desenhar um perfil contra o céu e um burburinho digno dum formigueiro na terra. Não viveria forçosamente numa destas cidades mas gosto de absorver a energia delas durante alguns dias.

Cheguei a Hong Kong, à ilha de Kowloon, de ferry vinda de Macau. A tarde já estava a terminar e acendiam-se as primeiras luzes da cidade. Quando saí do China ferry terminal à procura dum táxi encontrei-me num centro comercial sofisticado à semelhança dos que encontram em Singapura, Kuala ou Banguecoque.

O táxi atravessou várias ruas de Kowloon e levou-me ao hotel que fica em Mongkok, perto da Ladie's street e duma zona de lojas e mercados abertos quase a noite inteira. Kowloon é a parte de Hong Kong onde se encontra o museu de arte da cidade e outros museus. Hong Kong central, com Victoira harbour e com o skyline famoso fica do outro lado. Kowloon é por isso o sítio ideal para apreciar a beleza urbana da outra margem.

O hotel tinha uma vista deslumbrante sobre o porto. A burguesa que há em mim aproveitou a desculpa de passar só uma noite para fazer o gostinho. Valeu a pena ter um janelão em frente aos pés da cama com vista sobre a cidade e victoria harbour, fenomenal.

Nessa noite passeei pelas ruas de mercados e lojas e restaurantes e vendazinhas e anúncios de neons e muita gente até às tantas da noite. Voltei exausta para o hotel, as ruas continuavam a fervilhar de gente. Deu para apreçar Asus Eeepc , deu para fotografar andaimes todos em bambú (perante o olhar atónito dum velhote), deu para inspeccionar as raízes e coisas desconhecidas nas lojas de medecina chinesa.

No dia seguinte fiz-me à estrada decidida a caminhar até à margem do mar frente a Hong Kong Central. O calor apertava, mas eu de facto sou europeia até debaixo de água, é nestas ocasiões que me apercebo. E valeu a pena.

Hong Kong tem ruas de arranha-céus mas logo ao lado ruelas de prédios mais decrépitos e mais baixos onde se encontram mercados de fruta, legumes, roupa, frutos do mar e peixe seco. Mais à frente lojas de jóias de jade, depois ouriversarias, e aqui e ali os cheiros. A podre, a cânfora, a doce...a Durian que é como se fosse a podre outravez. Vi vários gatos sonolentos sobre ou entre as bancas.

Num parque frente a um templo os velhos passam o tempo e procuram um pouco de frescura subindo as camisas até às axilas exibindo as barrigas. O templo tinha imensos incensos pendurados no tecto o que me atordoou um pouco à entrada e fez esquecer a profusão de cheiros bons e maus que tinha sentido até então.

Depois enveredei por uma ruela que me levou a uma livraria inglesa onde comprei um livro de história sobre a expedição marítima chinesa à volta do mundo no século XV: 1421 the year China discovered the world de Gavin Menzies.

Entretanto tinha chegado a hora do almoço e já eu estava na parte baixa da cidade, junto às ruas de centros comerciais de luxo. Foi a ocasião para comer no Din Tai Fung de Hong Kong e de me deliciar com nada mais nada menos que 12 dim sum e xiao long bao...

De barriga cheia desemboquei inesperadamente no cais do Star ferry terminal com uma vista deslumbrante sobre a outra margem. Uau!!!

Depois de passear pela marginal e dar um saltinho ao Peninsula (onde decorria um chá com danças de salão à anos 40...esta coisa do gosto e raiva pelo ocidente tem destas coisas insólitas), apanhei o Metro para o hotel. O Metro é excelente: funcional e muito claro. Já de bagagens nas mãos voltei ao terminal de ferries e regressei a Macau onde me soube muito bem voltar à pacatez da "calma" macaense e daquela que é já quase a "minha" cama.




segunda-feira, maio 05, 2008

Fim-de-semana: A tocha e Hong Kong

No Sábado como provavelmente saberá quem aqui vem, a chama olímpica passou por Macau. Eu tinha decidido ir a Hong Kong no fim-de-semana e como o percurso da chama passava ao pé do hotel resolvi esperar para ver e partir só depois.

O que eu vi não permite as interpretações que tenho lido e visto nos media daqui. Os media daqui referem uma manifestação patriótica sem precedentes dos macaenses pela China Rpc, mais até do que em Hong Kong. Tudo vai de como se decide apresentar os factos.

No Sábado o que eu vi foi muita gente contente, muitos com bandeiras da China, t-shirts com a bandeira chinesa e slogans patrióticos em que ouvia "Zhongguó" , i.e. China, a intervalos regulares.Muitas camionetas que transportavam magotes de gente. Pelo meio outras pessoas com bandeirolas verdes (com a bandeira de Macau), alguns estrangeiros, como eu e um grupo de lusófonos que agitava as bandeiras de Portugal, Brasil, Angola, Timor.

Enquanto esperava pela passagem da tão famigerada chama meteram conversa comigo no pouco chinês que falo e no pouco inglês que eles falavam. Nenhum era de Macau. Os chineses com bandeiras chinesas à minha volta (e se os havia) vinham todos de Zhuhai, cidade do continente que faz fronteira com Macau. Eram todos muito curiosos e queriam aproveitar para falar inglês, saber coisas de onde vinha. Falaram-me logo do Figo. Juro, futebol, volta tás perdoado!

Coincidência ou não, todos os asiáticos com quem falei e que tinham bandeirolas verdes eram de Macau e os de bandeirolas vermelhas eram da China RPC. Não seria assim em todos os casos seguramente, mas achar que dos 250 000 que vieram às ruas eram todos macaenses a expressar o patriotismo pela RPC parece-me uma extrapolação forçada, para não dizer muito forçada.

Cereja sobre o bolo: no início do cortejo passaram umas camionetas com música representando os patrocinadores. Foi curiosamente paradoxal ver os chineses continentais a gritar vivas à China à passagem do camião da Coca-cola, quer dizer, Coca-cola, right, primeiro patrocinador, vivas de histeria, Coca-cola repito, seguida da Samsung...

Havia polícia por todo lado num aparato que quase me levou a crer que estava ali para ver passar o Papa ou o Dalai em pessoa, perdão a "clique" como lhe chama a imprensa chinesa. Mas não, era só a chama olímpica mesmo. Depois daqueles minutinhos de histeria, o pessoal debandou, mandou a chama continuar a sua volta e foi passear para a beira-mar, na Doca dos pescadores (Fisherman's Wharf) que não é todos os dias que se vem do "contenente" à "cedade".

Eu peguei nas minha coisitas e fui apanhar o ferry para Hong Kong.

Ora bem, Hong Kong (segue no próximo post).

sexta-feira, maio 02, 2008

Após 6 dias de Macau

Levo seis dias em Macau. Seis dias a trabalhar pelo que a minha visão não é a do turista, a não ser que seja a do turista acidental.

Já tive ocasião de passear pelo centro histórico. As minhas impressões constam essencialmente do post anterior.

Apesar da RAEM ter tamanho reduzido ainda tenho muito que ver. Irei repartir a coisa pelos 17 dias que me restam aqui, que aliás serão divididos com um fim-de-semana em Hong Kong já amanhã.

Apeteceu-me contar aqui as minhas primeiras impressões do trato com os Macaenses.

No hotel são muito profissionais e simpáticos, muitos são filipinos. Têm sido adoráveis.

No contexto profissional há macaenses e chineses do continente. Os macaenses falam mais abertamente sobre o que lhes apetece, parece-me evidente. Os macaenses com quem tenho falado (e por isso não quero generalizar) não gostam dos Hong Kongueses nem de Hong Kong, nem dos turistas da China continental, nem dos filipinos, nem de Shanghai (eu comecei por dizer que queria muito conhecer Shanghai e Hong Kong, bingo!) . É o que depreendo dos comentários pouco abonatórios que vou ouvindo. Os jovens adultos de 30 anos e menos pouco sabem da China e do resto do mundo. Reconhecem-no sem problemas, mas não deixa de ser estranho. Os jovens são abertos, com sentido de humor.

Por todo o lado se houve falar dos jogos olímpicos, da chama. Já começa a enjoar. Em Macau foi recusada a entrada a dois cidadãos de Hong Kong ligados ao partido social democrata de lá. Parece que não é a primeira vez. A Net também tem sido controlada. Houve a detenção dum fulano que escrevia num forum na internet sobre possíveis formas de apagar a chama. Os canais chineses estão a aplicar uma dose de cavalo de notícias sobre ...adivinhem lá...os jogos olímpicos, que deixa o nacionalismo chinês ao rubro. Que surpresa as manifs em frente ao Carrefour num país onde as manifs estão proibidas, que curioso... A CNN anda muito mansa nas suas reportagens sobre a China e respectivos jogos.

Ainda na China, iniciou-se ontem uma exposição sobre o Tibete para que se conheça bem a História. Na reportagem refere-se o atraso em que eles viviam, como eram pobres , atrasados etc... Aquilo era a Idade Média e a China trouxe o século XX, até o XXI, trouxe a democracia. Uma verdade parcial , mas parece-me particularmente cínico terminar a reportagem entrevistando uma jovem tibetana que um pouco envergonhada diz não saber que o seu povo era tão atrasado, ainda bem que as coisa mudaram... É só a mim que isto faz lembrar o discurso colonialista "do branco que levou a civilização aos pretinhos"?


Sinto que me auto-vigio constantemente para não ferir susceptibilidades. Acho que já meti uma argolada aqui e ali sem qualquer intenção. Os jovens são tolerantes, os mais velhos... Não queiram saber como reage um taxista a quem ouso perguntar se vai de facto onde lhe pedi visto que opta por um caminho diferente do habitual. Já tive de ouvir que as coisas estão muito melhores agora do que sob soberania portuguesa. Nem percebi a que propósito vinha aquilo. O que será que eles pensam que uma portuguesa de 35 anos quer de Macau? Será que nos imaginam uns colonialistas como no tempo da outra senhora, nem sequer vivi nesse tempo, adiante...


Nas lojas as pessoas são amáveis e tentam genuinamente ajudar-me a encontrar o que quero, até o caminho...insisto em andar o máximo a pé.

E agora mesmo, está ali no corredor um chinês (deve ser daqueles que os macaenses não gostam;-) a gritar qualquer coisa à porta do quarto de outra pessoa... é só 1 da manhã e pacóvios há os em toda a parte.

Amanhã espera-me Hong Kong, mas só depois de ver passar a sacrossanta chama. Como será Hong Kong?

Bom fim-de-semana :-)