quinta-feira, novembro 30, 2006

Linhas invisíveis traçadas no espaço

De repente os olhos cruzam um rosto conhecido. Quantas vezes acontece: do outro lado da rua, da sala, do autocarro, do cinema, dum restaurante.
Cara conhecida pode ser muita coisa. No caso é o olhar cúmplice de quem nos reconhece e conhece, biblicamente falando. Sem saudades, nem remorsos. Naquele espaço entre o tecto e as cabeças sentadas cria-se uma linha de cumplicidade. Nem são memórias exactas que povoam a mente. Podem ser, mas não são. Não há palavras, apenas um sorriso ténue. Como quem diz, sem nos conhecermos sabemos onde ficam as nossas curvas, sem nos lembrarmos em tempos soubemos a que sabiam as nossas bocas.
Sem mais, sem lamentos, sem "ses". Com um sorriso fugaz, imperceptível, estamos agora noutro lugar, noutro tempo.Estamos no futuro. No espaço a linha traçada volta a desvanecer-se.

Pelos direitos humanos

Não tenho conseguido postar (achaques do blogger, talvez, não sei):

Vejam, mastiguem, digiram ...e depois divulguem:

Campanha da Amnistia Internacional de combate à violência contra as mulheres.

Decretos-lei por si só não mudam mentalidades. Essa é uma responsabilidade de cada um de nós. Não pudemos continuar a fingir que não vemos, não ouvimos, não sabemos, não sentimos.
A este respeito, um filme espanhol "Te doy mis ojos". Como perceber a violência, os papéis de agressor/agredido. Manipulações. A falta de amor próprio, o sexo como arma de controlo, a erotização da relação predador/presa. Numa história infelizmente normal.

E

O PR decidiu e eu que sou tuga migra já anotei. Referendo à despenalização do aborto será no dia 11 de Fevereiro.
Vou votar, 1º passo importante
Pelo SIM.
Chega de hipocrisia, de falsas consciências e da puerilidade que é pensar que se resolve um problema:
1-Impondo uma escolha aos outros/as, ao corpo e vida de outras mulheres, só porque isso respeita uma suposta moral que quem dita nunca tem ;
2-Dormindo com uma consciência falsamente tranquila acreditando que assim desaparece o aborto quando todos sabemos que não deixa de existir, são só os números que deixam de aparecer oficialmente nas estatísticas.
Deixemo-nos de ataques de avestruz-de-cabeça-enterrada-na-areia. Seria bom que no meu país uma mulher adulta pudesse decidir o que quer fazer com o seu corpo. Que uma mulher não tivesse de ser presa, correr perigo de vida ou ter meios para sair do país para por termo a uma gravidez que não deseja.

segunda-feira, novembro 27, 2006

O Tempo

"Wishing you a happy and long life-Peaches painting"


Sentados à mesa. Uma mesa bonita. Bem posta, harmoniosa, oriental.
Serve-se sushi e sashimi. As travessas giram, o molho de soja verte-se, os pauzinhos agilitam-se.
Sugere-se sake, prova-se chá verde... equilibra-se um pedaço tenro de atum até à boca.
devagar
A conversa flui a passo de riacho quase seco que persiste em deslizar.
Calma. Saudosa calma e tempo para respirar suspira o anfitrião. Então...?
Três viagens por semana, responde, os filhos só os vê ao fim de semana. Não é o que esperava. Não lhe disseram, ratos!
O superior é uma superior. Não come, não dorme, não faz mais nada, só trabalha. A caminho de Frankfurt, a 150km/h a pedir-me para escrever e a querer ler o que eu escrevia, eu só queria chegar...
E quem não alinha? Quem não alinha lixa-se! Que viva assim quem quer, mas empenhar os outros nesta alucinação...
os filhos, a mulher...a vida hipotecados, [os filhos a mulher , a vida entre parêntesis até quando?]
Já estou a procurar outra coisa. E nós percebemos. E olhamos constragidos para aquele real jantar, servido com dedicação por quem nem tempo tem já para respirar, dar um beijo, ter uma zanga a sério, onde se diz o que se pensa, onde se faz o ponto da situação, onde se esclarecem malentendidos, a que se segue uma bela reconciliação. Tempo para ir passear, para ler um livro, para falar com o mais velho, brincar com a mais nova, dar-lhes o banho, deitá-los... Conhecê-los, conhecerem-no.
Não é isto que eu quero, a minha vida não é só trabalho. Quero ser homem e quero ser pai também.
Maravilhoso mundo povoado de horários nocturnos, de sanduíches mal amanhadas e cafés insípidos. De cheiro a alcatifas e tinta de impressora, de prazos sempre para ontem.
Mundo desorganizado de quem foge à intimidade e se esconde na pasta, nos dossiers, nos relatórios. Mundo que valoriza o ar sério de quem não dorme, não ama, não conversa...só conta os tostões e papa quilómetros, escalões, adversários/as.
Mundo dos índices de produtividade, de lucro, de testoesterona em demasia. Mundo de maior riqueza, para quem, para quê?
Mundo sem mundo, mundo sem vida.
Eu não quero isto. Eu também não.

sábado, novembro 25, 2006

Bom fim de semana!

*Foto Ladurée

Deixo-vos esta guloseima:-)

sexta-feira, novembro 24, 2006

A rã fervida

O saber tem para mim o som derradeiro duma sentença. Quando sei não posso fingir que não sei. Quando sei nem a mim me engano, ou seja quando digo que sei está sentenciada a minha sorte. Não se pense que transporto a capacidade de saber como um fardo. Ela é sim um despertador ou um sinal de estrada. No jogo de espelhos entre o consciente e o inconsciente não sei quando comecei a saber mas sei qual o momento em que soube que sabia.
Não desanimem, todo este palavreado chegará a algum lugar.
Pois eu soube há muitos anos que gostava de viver, tenho um apego à vida próprio de qualquer animal com apurado instinto de sobrevivência. Daí que a minha inteligência racional, supostamente, passe não só pela capacidade de acumular factos e de estabelecer relações de sentido entre eles. Ela passa também pela capacidade de me adaptar para sobreviver. Nos ideais sou rígida, no concreto viso os fins e escolho o caminho mais idóneo e respeitador para lá chegar.
Maquiavel não ousaria contradizer-me, em boa verdade, este é provavelmente o retrato de todos nós, ou quase...o talvez não, mesmo nada.
Acontece que estando eu sentada no tram de regresso a casa, acreditem ou não, lembrei-me da história da rã fervida... ou cozida, dá no mesmo. Não é uma fábula é uma experiência. Coloca-se a rã num recipiente com água fria e leva-se ao lume. A água vai aquecendo progressivamente sem que a rã se mexa ou tente saltar. A menos que a salvem coze e morre, passo a redundância pois nunca se viu uma rã cozida e viva.
Sei que assim estamos nós com o nosso recipiente, a Terra, a nossa Gaia mal amada. Procurei calor nos pés e não senti, agora mesmo estou a tentar e...nada. O que é mau sinal, pois a rã também não sente nada, ou pensa que não sente e morre cozidinha sem que lhe cobiçassem sequer as cochinhas.
Recosto-me na cadeira do eléctrico que em sorte me calhou e sei. Sei que não me podia contornar a mim mesma durante muito mais tempo. Da conjugação dos dois saberes que acima citei só podia tomar uma decisão, tendo eu este carácter que me impede de auto-ludibriar quando sei.
Hoje sem chuva e a horas cheguei a todo lado. Amanhã veremos. Mas a decisão ficou tomada. O carro fica na garagem, os pés estão frios e eu estou a tentar "saltar"...porque sei.
Para informações sobre o efeito de estufa e aquecimento do planeta, clicar :

quinta-feira, novembro 23, 2006

Tempting...

Consciências

"Grande coisa, se fosses coerente não andavas de carro!"..."Eu percebo-te são 50 minutos em vez de 15, quer dizer 50 em vez de 15, não há comparação."..."Sabes, porque eu sei que sabes, que se trata do efeito bola de neve, tu sózinha não és nada, mas tu+tu+tu elevado ao milhão, muda tudo de figura"..."Sim,sim, mas já reciclas o plástico, papel e vidro, todos os teus detergentes são ecológicos...acho que te podes permitir o conforto de ir de carro para o trabalho."
Chhhhiuuuu! Bom, ela não disse, nem gritou chiuuuuuu, mas o efeito foi o mesmo. Lá fora ouvia-se o ruído contínuo, surdo da máquina. Aquela máquina, a de motor e tubo de escape. Sonhou que tinha filhos e pronto, apesar do ruído sobressaiu a voz da consciência, a da ecológica, entenda-se.
Metodicamente previu o trajecto a seguir no site da Internet. Tudo, tudinho previsto ao minuto. E chegada a manhã, saiu de casa 40 minutos mais cedo que o habitual para apanhar o eléctrico que lá se chamava Tram, possivelmente do verbo tramar...quem sabe.
Armou-se de chapéu de chuva e livro para o trajecto. A chuva lá esteve fiel às fronteiras que lhe ordenam que caia ali e não noutro talhão. O Tram chegou a horas e ela subiu aparentemente séria, com o prazer secreto do plano que se confirma. Nada tem graça sem o aspecto lúdico. Na paragem indicada saiu e dirigiu-se ao Metro no meio da turbulência que é tirar ticket, abrir chapéu de chuva, não, guardar livro primeiro, agora sim o chapéu de chuva, bolas já me molhei, fecha o chapéu de chuva, procura o cais...senta e espera.
...e espera
...e espera.
Anúncio nos altifalantes: Devido a falha técnica há atrasos no Metro alheios à nossa vontade pelo que pedimos desculpa.
Sobrolho carregado à gato demoníaco pronto a atacar. Pensou, agora vou a pé e chego atrasada ou espero e nem sei quando chego.
Passaram 5 minutos e ela corre com os braços cansados de carregar a pasta, o livro e o chapéuzinho de chuva de má sorte. Esbaforida chega à próxima paragem de Metro, entra e espera.
Chegou e ela lá foi, suada, encalorada, toda encharcada e danada . Apresentou os motivos do atraso e justificou-se que era para não andar de carro. Sorriram-lhe compreensivos.
...Ao menos isso, é uma desculpa que suscita empatia.
[ ]
Não se esqueceu mas na realidade não tem escolha. Tem de voltar . Sentada, resignada espera o tal Tram que não vem. Ou melhor não vem do lado dela, que do outro passam 6, sim nada mais nada menos que seis. Quando chega o dela , muito depois é o salve-se quem puder a fazer lembrar as noites de cinema para os filmes concorridos que não têm lugares marcados. As faíscas já lhe saltam a cada pensamento que assoma.
Uma hora depois está em casa. Não sem antes ter comprado três bilhetes de 10 viagens para os próximos tempos, porque não é um dia de desaire que a vai demover. Afinal, há que fazer jus à fama de teimosia que tem.
Entra em casa, lança as chaves tranca a porta e puxa do fundo da indignação um paízinho de merda!

quarta-feira, novembro 22, 2006

Sopro Vital VII


Centímetro a centímetro o corpo instala-se na terra. Respirar calmamente...sim...abandonar cada músculo...sim...cabeça pesada...uhmmm...ainda não, pés pesados...uhmmm ainda não, respirar outravez encher a barriga, expirar pela boca.
Concentra-te no local que te faz sentir bem, procura o teu paraíso, uma boa memória...bom, boa memória podia ser... e também podia ser... .
Do corpo esqueci-me e ele ficou esquecido em cima da terra. Lembrei-me dele quando lhe senti o peso. Um mamute, um dinossauro, este corpo não é meu?! Tão pesado, a qualquer momento afunda-se pelo chão, não há peso assim, não há chão que o sustenha. Dois, três segundos de quase pânico, o chão vai abrir-se, esta massa, esta matéria é gigantesca, maciça. Respira calmamente oiço, sim respirar. O ar enche-me. Que força tenho para me carregar pela vida. (olhos fechados, sobrancelhas arqueadas). Recordo, a Terra é maior, é mais pesada, pode comigo, pode com estas toneladas que eu carrego. Deixo-me pesar sobre ela, deixo-a pegar-me, suster-me, aguentar-me. E eu neste corpo inerte, sinto-o como se não fosse meu, como se o pudessem transportar sem mim.
Respira...respira, enche-te de ar. Movo os dedos, parecem leves, recupero-os pouco a pouco. Recupero a matéria à terra, este pedaço que devagar se vai distinguindo do chão, da madeira, do frio da cêra, do mole do colchão. Neste pedaço só há a minha voz que ressoa do alto.
Transporto-o com leveza, com o ar que insuflei... estive a fazer Yoga.

terça-feira, novembro 21, 2006

Literatura...a minha geração

O British Council tem uma iniciativa fabulosa de alguns anos a esta parte.
Chama-se New Writing e consiste na publicação anual de uma colectânea de contos ou passagens de texto de novos escritores que escrevem em inglês (e que não são forçosamente ingleses).
Escritores que não dispõe por vezes de meios para serem publicados pelos canais normais e que são seleccionados pelo British Council possibilitando uma divulgação que doutra forma não existiria.
É dada voz a escritores de todos os hemisférios e meridianos numa abertura de espírito quanto ao estilo-forma e conteúdo que admiro ( e que nada têm que ver com literatura light).
Gostava de ver algo assim para a literatura lusófona. Será que já existe e desconheço? Geograficamente a extensão é vasta, a riqueza literária e cultural também.
Não andará o nosso canon demasiado habitado por valores instalados? Não que estes sejam maus, mas talvez ande vampira, o que querem, apetece-me sangue novo...
P.S.: Obrigada à MM que me fez descobrir esta iniciativa:-)

segunda-feira, novembro 20, 2006

Volver...



Encontraram-se em Bruxelas, casaram e viveram em Portugal. Dez anos depois, ano por ano,dia por dia, vieram para Colónia. Nova vida. Vieram para perto de mim, seguindo as escolhas que fizeram, para longe de outros, quem sabe...
Conheci-a a ela, em Coimbra. Foi há tanto tempo. Mas somos nós e já não somos nós, faz sentido? No sofá do apartamento que dividíamos na altura assitimos na Sic a uma retrospectiva de Almodóvar. Rimos, descobrimos, ressentimo-nos, sofremos. Queimamos pestanas e depois...depois seguimos o nosso caminho.
Que voltou a aproximar-se. E lá pelo meio o castelhano. Meu de sangue e profissão. Dela raiano e por paixão.
E sempre que vejo Almodóvar lembro-me de ti amiga. Do teu humor subtil, da tua naturalidade. Que a vida te sorria no teu período Kölsch, que tu lhe sorrias a ela.
As voltas que a vida dá...Volver:-)

sábado, novembro 18, 2006

No que eu gostaria que o meu país apostásse...

...esta é pelo menos uma das apostas que gostaria de ver feita. Sem radicalismos,mas sinceramente, estamos muitooo longe deles.

E mais uma vez, Bom fim de semana!
Assinado: the organic junkie;-)

sexta-feira, novembro 17, 2006

Fim de semana perfumado a água de...

*Foto de Saurav Saha
Bom fim de semana!

34

Vão passando... e ainda arranjo um bolo e duas velas e aguardo com prazer assumido o momento da cantoria. Esperem...tenho de fechar as luzes...qual é a piada com as luzes acesas...tsss,tsss. Já não o fazem por mim, sou eu que assumo o papel de mestre de cerimónias...e de centro das atenções. Sim, uma única vez por ano, adoro vê-los à volta da mesa comigo pactuando neste faz de conta, rindo-nos cúmplices. Eu sou criança outravez e assumo aquele ar maravilhado perante duas velas, um bolo e um coro de vozes que canta 2 estrofes. E no fim, rimo-nos todos e eu também bato palmas. E adoro-os porque sabem e eu sei que a repetição é fictícia e que o fazem porque eu gosto.
...lá pelos 80 , permita-me o corpo e o juízo, estaremos todos cantando e eu fingindo por segundos que sou menina outravez. Cantando também com a dentadura ou sem ela, quem sabe...mas serei gaiteira, isso sim, festa e bolo e copos e conversa...assim me permita o espírito. Mas desejo sobretudo que estejam lá todos à volta, não tanto por me alimentarem o sonho por segundos, mas porque estarão lá.

terça-feira, novembro 14, 2006

Vale a pena ler...

Joana Amaral Dias sobre o racismo das crianças portuguesas de acordo com um estudo realizado, no blogue Bicho Carpinteiro.


Sobre o que se lê no post, acrescento o seguinte:

A escola reenvia-nos uma imagem da sociedade. Em pormenores tão simples como os exemplos de um problema de matemática ou na escolha dos textos numa aula de literatura. A Escola deve acompanhar a sociedade em que se integra sob pena de surgir um desfasamento entre a realidade circundante e a teórica que ela cria no nosso imaginário colectivo
E pior, sob pena de criar uma fractura social que mais cedo ou mais tarde todos pagamos.
Assim como é ridículo ensinar Português com textos que perpetuam os papéis tradicionais do homem e da mulher, é ultrapassado utilizar imagens duma sociedade etnicamente uniforme, ou onde a diferença é conotada com um qualquer exotismo redutor, quando se olha para uma sala de aula e não é isso que se vê.
Ensinar outras línguas, referir a história recente da chegada das novas comunidades, intergrar diversidade cultural na escola é mostrar o que passa à sua volta. E não ter medo de debater o racismo, não ter medo de abordar o tema, favorecer o debate proporcionar o diálogo. Tudo menos fingir que o problema não existe.
A exclusão subreptícia passa por aí, passa por afirmar indirectamente: a tua diferença não existe, como és diferente não existes ou não deverias existir. Não te encaixas nesta imagem de perfeição.
O problema, é que esta mensagem nem sequer é afirmada clara e frontalmente para poder ser refutada da mesma forma. São as mensagens subliminares as mais difíceis de combater.
Não cabe apenas à Escola desempenhar este papel. Naturalmente que ele começa em casa, nos valores de respeito que se transmitem ou não.
Existe outro domínio em que a imagem transmitida reflecte mais a de uma mentalidade que a real. Estou a pensar na publicidade.
Prima, regra geral sublinho, pelo perpetuar de papéis de um machismo primitivo e por uma exclusão gritante de vários grupos da sociedade. Se bem que, este é um sector que se rege pelas leis do mercado, seduzir a clientela potencial. A palavra chave é poder de compra. Basta ver o número crescente de produtos internacionais que utilizam figurantes asiáticos nos spots.

Da mesma autora vale a pena ler um post sobre a comunidade chinesa em Portugal, também no blogue Bicho Carpinteiro.

Homem Aranha em Lisboa...

Pensavam que isto dos super-heróis é "faz de conta", pois não é não... vejam aqui. Eu é que sou a ovelha negra da família, subir só se for pelas escadas , elevador ou quando muito pelas escadas rolantes... sou uma versão moderna, digamos assim.

segunda-feira, novembro 13, 2006

Saramago



Entrevistado hoje no El País a propósito do seu último livro "As pequenas memórias".

*Foto de João Pina, Kameraphoto.

Eu leio, tu lês, ela/ele lê...

Assim segue o verbo conjugado sempre nas várias pessoas. A leitura é isto mesmo, a minha, a tua, a dela, a dele, a deles, a nossa. Sempre uma, duas , três.... possíveis.
No Domingo reunimo-nos cá em casa para o primeiro encontro do círculo/clube de leitura em português.
Começámos com Paulina Chiziane.*Clicar na imagem para aceder à editora


Mais precisamente com o livro "Balada de Amor ao Vento"(ed. Caminho) que era tão simplesmente o que eu tinha cá em casa com a intenção de descobrir esta escritora.
Foi também a intenção de começar por outras margens, por uma língua portuguesa falada e manuseada por quem a possui doutra forma, por quem a pensa de outra forma, à língua e ao mundo.
As reacções foram fortes e divergentes. O que é sempre bom para um debate animado. E assim foi.
Talvez seja um eufemismo dizer que a escrita de Paulina causou estranheza e sentimentos fortes. Falarei aqui dos meus.
Interpelou-me pela forma como escreve como se falásse. Aqueles são contos de quem os ouviu de outro alguém. O amor do título é o de Sarnau e Mwando. Dos campos longínquos até ao bairro de lata de Maputo ainda dos tempos coloniais. Por ela descubro uma relação com a natureza animada de espíritos, o significado dos batuques nas aldeias, as relações apaixonadas e ingénuas, manipuladoras e opressoras. De mulheres e homens, de mulheres e mulheres com homens e sem eles. A polígamia descrita por quem a sofre.
O livro abre-me para um outro ver. Porque não sou o ouvinte habitual destas histórias, que contadas à volta da fogueira tinham habitualmente um público negro, com os seus códigos próprios de estilo, de ritmo, de estrutura e moral (hesito em utilizar esta palavra).
Daí a minha estranheza inicial, que rápido se tornou num outro olhar possível. De quem conta a história que tem para contar, sem impor uma moral. Quem escreve porque necessita escrever, necessita contar. Sinto-a sincera e autêntica, fiel aquilo que é e não ao que se espera que seja a escrita com os nossos moldes. Ficou-me a curiosidade de ler mais.

sábado, novembro 11, 2006

My Architect - A son's journey

Quem sou eu? será a pergunta que nos traz percorrendo a vida. Nem sempre pensamos nela, mas lá está, na nossa busca de Deus, na nossa busca do pai e da mãe, na nossa confrontação com a vida e com a morte. Quem sou eu?
Nathaniel Kahn leva-nos com ele na sua viagem de procura do pai que pouco conheceu: o arquitecto Louis I. Kahn. Descobrimos as obras deste arquitecto pelo olhar do filho que tenta decifrá-lo .
O documentário é interessante e muito tocante por isso. Descobrimos o homem através do arquitecto. O criador genial de eternos "monólitos" atrás do criador incapaz dos filhos que deixou. O arquitecto amado e o homem incompleto. A cólera do filho e o apaziguamento que procura. A obra que questiona o criador. O criador que não a soube amar como ela queria.
Paralelos os caminhos do pai que se inventou questionando Deus, o pai que ele próprio não teve. Projectando-se em inúmeras contrucções. O caminho do filho que procura conhecer o pai que nunca esteve presente, que sempre foi esperado.
Mas os caminhos não se repetem, Nathaniel, o filho, procura perceber, investiga o passado de Louis filho de judeus vindos da Estónia e encerra o capítulo. Cabe-lhe quebrar o ciclo vicioso de homens incapazes de viver o seu lado afectivo. Nathaniel desconstrói e confronta a mãe, questiona-se sobre a família, não hesita em descontruir o mito de Louis. Ver o homem que terá sido, imperfeito e genial. E agora, resta-lhe seguir o seu caminho.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Vale a pena ler...

No blog "Os Ambientalistas" o post FNB-Felicidade nacional bruta. Temos caminhos à escolha agora a decisão é nossa, nós é que decidimos por onde vamos, é esta a minha forma de optimismo, acredito nas escolhas que começam por mim:-)

P.S.:Já não sei como cheguei a este blog, terá sido pela Nokas? É provável, mas já não me lembro, são os caminhos labirínticos da rede...;-)

quarta-feira, novembro 08, 2006

Ponto.........de vista.......de fuga....

Cá estou eu sentada no meu aquário, sentada a ouvir e a falar. É o que gosto de fazer. Não me queixo. Claro, nesta cabeça entretanto vão passando considerações de natureza variadíssima. Marcar almoço, acabar o livro, preparar o fim de semana, o disparate das novas normas de segurança nos controlos dos aeroportos... e espera aí, que sons são estes que me chegam aos ouvidos? Ah, sim, é finlandês, quem fala pensa que é inglês, mas não é. É finlandês disfarçado de inglês, como gato escondido com rabo de fora, ninguém vai no engodo.
Uhmmm, deixa lá o almoço, impõe-se uma reflexãozinha sobre estes sons. Não são só os sons, que são metálicos e insolitamente entrecortados. Insolitamente porque os espaços, que são abruptos, surgem onde não se espera. Onde uma mente que sabe inglês não os espera. Não, não é só isso, é aquela cadência monótona. Para mim é monótona, não é aqui que me vou por com paninhos quentes. É chatinha mesmo. E é lenta. Sim, deve estar a pensar quem fala e para corroborar faz uns suspiros sofridos e esforçados a cada 10 palavras. O parto está a ser com dor, pelos vistos...
Monótono, uhmm como aquele finlandês da juventude que me ofereceu chocolates finalndeses. Foi assim que descobri os "Frazer". Que sabem a chocolates Regina antigos o que não é mau, mas eu vivo em Bruxelas, a barra em matéria de chocolate anda pela estratoesfera...wrong choice. E será que posso dizer aqui que parecem todos filhos do mesmo casal? São parecidos. O que não é mau... nem bom. Ao contrário da sauna, nem me aquece nem arrefece.
São simpáticos, são, são... são simpáticos, os finlandeses são porreiros, são descontraídos e são simpáticos.... Quando falam, sim quando falam, sim...
Lembro-me daquela vez em Turku, no hotel em que a alcatifa cheirava a pés e a reunião foi interrompida porque o sistema de som deu o berro. Na mesmíssima reunião em que o Director da Nokia veio para um discurso sobre o exemplo finlandês de aposta no desenvolvimento tecnológico. Aha, pensei, se fosse em Portugal estavam todos a afiar a língua para as bocas mais arrogantes e preconceituosas que a imaginação lhes permite.
Mas são simpáticos, são, são... . E prestáveis, é verdade, é verdade. O salmão é uma delícia, a carne de rena é variada e as bagas são refrescantes. Têm leite sem lactose para os alérgicos. É bela a natureza e são pragmáticos. Frontais sem serem rudes. E dá para ter uma conversa normal... até ao pôr do Sol, depois dá-lhes a louca e é beber até cair. E eu a pensar, é isto a Europa modelo? Foi um choque que me passou depressa, quem me manda a mim ter expectativas... Têm um design lindo, já me esquecia, uma emancipação feminina de fazer inveja... e o meu telefone é Nokia, contra factos não há argumentos, pois é, pois é.
Com o telemóvel na mão, penso "pois é, pois é", enquanto escuto aquela ladaínha pseudo-inglesa e claramente ineficaz . Uhmmm, como são lentos e como têm aversão a acabar cedo, safa...a coisa arrasta-se sem sentido. Um olhar vazio tomou de assalto a sala. Visto daqui é cómico. Por enquanto...

segunda-feira, novembro 06, 2006

Encontro marcado no dia 24 de Fevereiro na Ancienne Belgique

Até lá, tempo para descobrir, para sentir, para sonhar com esta voz..."Like a Star" Corinne Bailey Rae.

Homo sapiens sapiens?

Como é que fomos capazes de inventar conceitos como razão , lógica, justiça, empatia, ética, amor, amizade? Somos complexos de facto. Criamos conceitos abstractos, conseguimos concebe-los, para quê? Para quando dá jeito...ahhh, está bem.Ou para o que dá jeito. Ou ainda para nos dar jeito a nós e não aos outros. Já agora "Outro" qu'é isso? Consciente qu'é isso? Pr'a que serve?

Recapitulando:

1-Estamos perante um confronto de civilizações porque: os outros são uns fundamentalistas religiosos, os outros são o Mal. Ora,temos de nos proteger do Mal, Deus abençoe a América;

2-É justiça fazer a guerra, para prender um ditador facínora que tortura e mata os seus cidadãos , ficar com o petróleo do seu país,colocar tropas ao lado de outro país, pelo caminho matando milhares de pessoas, condenando o ditador à morte e torturando detidos na prisão e sem julgamento;

3-Coitadas das mulheres oprimidas e aniquiladas no obscurantismo do fundamentalismo islâmico que armámos e ajudámos a subir ao poder quando nos foi conveniente. Contra o qual fizemos a guerra porque coitadas das mulheres e porque lá anda o Osama, o Mal. Mas, o Osama sumiu-se e as mulheres para lá ficaram, com as mesmas burkas e os estudantes religiosos também por lá continuam, mas isso já não interessa nada;

4-A Europa não é a América, nós não nos pomos com discursos religiosos, estilo Deus abençoe a Europa, só fabricamos armas para todos os conflitos e mais algum que apareça, e convidamos o sr. Bush para os Açores e dizemos que não, mais tropas não, mas lá vamos enviando os nossos dados e os aviões passam por cima da nossa cabeça e nós calamos. E olha lá vão mais umas empresazitas da construcção civil reconstruir para aqui e para acolá...

5- Porém, temos a nossa consciência, a nossa comunicação social, a mesma que faz reportagens sobre os "Gates" que vão surgindo na política, a que chama a atenção para os aviões que nos sobrevoam, a que se vai lembrando da taxa de suicídio das mulheres e da taxa de violência doméstica. A mesma que fala do que lhe dizem para falar porque há imperativos finaceiros que falam mais alto. Nós lá vamos lendo e indignamo-nos. Até escrevemos uns posts, como este, e depois...

6- ...depois uns votam no Vlams belang ou no Front national porque isto está cheio de estrangeiros que nos roubam e que nos podem fazer mal, e quando temos medo ninguém nos protege.E a pobreza é tanta com estas avalanches de mortos de fome que nos vêm tirar o pão da boca. E ninguém nos tenta entender. Nós que damos tanto dinheiro para aquelas criancinhas subnutridas que aparecem regularmente na televisão e que estão lá longe, muito longe... Ou então estamos/somos contra e não vamos votar porque são todos iguais. Para mais tarde nos indignarmos com a subida da extrema direita.

7- Somos mortais, sabemos que somos mortais, vivemos na busca de poder que nos inebrie e nos faça esquecer que vamos morrer, que não controlamos nada. E por isso vivemos tentando controlar tudo.

Como é que fomos capazes de inventar conceitos como razão , lógica...? Talvez porque também fomos capazes de inventar conceitos como poder, interesse, ganância, comodismo, auto-negação, inércia e ...medo do medo. De tudo isto somos capazes.





Comer peixinho do mar...a controversia...


A revista Science como referi no post "Comer peixinho do mar..." publicou um artigo apresentando o resultado de um estudo de cientistas com um cenário catastrófico dos recursos haliêuticos daqui a 50 anos. A FAO refuta o carácter catastrófico, e não está sózinha, como se pode ler no Público de hoje. A Nokas teve ocasião de comentar o dito post que fiz, alertando para elementos importantes a ter em conta:
a situação é catastrófica no caso de algumas espécies (bacalhau de determinadas regiões, por exemplo), nomeadamente de grande porte (tubarão de profundidade, mero).Eu aqui pergunto: afectar o equilíbrio dessas espécies não terá um impacto no resto dos ecossistemas?;
a responsabilidade é da pesca massiça de arrastões de grandes empresas (japonesas, chinesas, espanholas, entre outras...) ;
há que ter em conta as capturas acessórias de espécies que não se vendem ou que ainda não são adultos, sendo no entanto capturadas juntamente com o atum ou o bacalhau, por exemplo, e depois devolvidas ao mar, mortas (para tal é fundamental o tamanho da malhagem das redes utilizadas, e que é já regulamentada por legislação comunitária);
e, muito importante, a lei do mercado é que rege tudo isto, ou seja, vende-se o que se come, se comprarmos diversidade não pescarão sempre os mesmos peixes. Embora isto também seja uma pescadinha de rabo na boca (não resisti a usar mais esta expressão) dado que compramos o que aparece no mercado...Enfim, devemos ser consumidores conscientes.
Talvez seja esta a conclusão a retirar desta "polémica" que me interessa como se pode constatar lendo o post "Alimentação consciente" que escrevi em Janeiro onde referia:
"É possível fazer alguma coisa. A associação britânica "Sustain" elaborou uma lista de peixes cuja pesca é " sustentável" (oriundos da pesca ou da aquicultura e não contaminados) ainda por cima ricos em Omega3. Alguns exemplos aí citados: o do arenque do Atlântico, a sardinha, o Bonito-listado(atum), o atum albacora, o bacalhau do Pacífico, o robalo branco, o robalo de aquicultura, o linguado, o alabote do Alasca e o do Pacífico, salmonetes, o pregado."
O tempo vai passando e a situação mantém-se. É preciso ganhar consciência do papel individual que também podemos desempenhar.

sexta-feira, novembro 03, 2006

Bom fim de semana!

Que venha o frio, a chuva, com este ritmo posso bem com eles...e este é o meu primeiro vídeo:-)))))

Comer peixinho do mar...

*Foto BBC

...talvez só durante os próximos 50 anos. 'Only 50 years left' for sea fish afirma uma equipa internacional de investigadores num artigo da revista Science. O que será que vai acontecer nas próximas negociações das Pescas na UE? Será que é desta que deixa cada um de puxar a brasa à sua sardinha? É que qualquer dia não há sardinha...

Vale a pena ler...ou Vale a pena leres isto, tu que supostamente lideras...

As minhas noites e os dias...

..."Quem me dera uma sesta", "Ah, o prazer da sesta", "O sono é uma perda de tempo", "Não, uma sesta é um privilégio"...assim ia a conversa entre amigos sentados à mesa do almoço enquanto o tempo fugia e o trabalho deitava cada vez mais o nariz de fora e espreitava.
Acordei dum sonho estranho. Nem bom, nem mau. Estranho, daqueles que ficam a rondar durante o dia. Primeiro com imagens nítidas depois desvanecendo-se até deixar só um sentimento estranho, já sem memória exacta. As minhas noites...sim as minhas noites sempre foram muito povoadas, muito vividas se quiserem...por vezes atribuladas. ...olho lá para fora, está Sol e frio, nesta ordem porque estou dentro de casa. E o sonho sempre ali a envolver-me.
As minhas noites, o meu mundo onírico lembro-me dele desde sempre. As primeiras recordações parecem-se mais com ele do que com este que vejo da janela.Terei começado assim?
As minhas noites e os meus dias são apenas uma sequência . E eu e eu e eu, por lá. Acordei dum sonho estranho... .

quinta-feira, novembro 02, 2006

Benvingut...foi assim...V

Montjuic-Fundação Joan Miró-Barceloneta










Benvingut...foi assim...IV

Ronda del Litoral





Benvingut...foi assim...III

Parque Güell-Passeig de Gràciá-Sagrada Familia







Benvingut...foi assim...II

Mercado "La Boqueria"









Benvingut ... foi assim... I

Rambla dels Caputxins-Barrí Gótic-Ciutat Vella