terça-feira, julho 11, 2006

Sawadeeka III (continuação)



O sono de uma horita durou 4 horas. Claro, estava bem de ver. Mas soube bem. O quarto estava fresco e a realidade que tinha vislumbrado lá fora estava a uma distância de segurança, separada por uma enorme vidraça, no 39º andar com vista sobre os cumes dos prédios polvilhados aqui e ali de piscinas. Lá em baixo, lá muito em baixo as estradas ladeadas de árvores. O céu tem uma côr curiosa, cinzento quente. Cinzento de calor, humidade e poluição. Cinzento-febre.
O Sr. A corre para o duche e sugere a primeira saída logo a seguir. Cá vou, hesitante. Hesitante porquê? Dividida, talvez. Dividida entre a vontade de ir viver e a rejeição. Acho que deve ser isso que sente uma criança momentos antes de nascer, de irromper por ali fora. É que o pouco que senti de Bangkok na viagem do aeroporto até ao hotel foi muito. Bangkok entra pelas narinas, pelos olhos, pelos poros e não pede licença. E eu tão protegida no casulo do quarto de hotel. Respiro fundo, o impulso de vida é mais forte. Agarrem-se os sentidos, vou sair.
Devidamente lavados e cheirosos depois dum duche revigorante aproximamo-nos da porta do hotel. Dois sorrisos irresístiveis abrem-nos a porta e sugerem um táxi. Táxi?...uhmm, não muito obrigada vamos só dar uma volta. Os sorrisos impassíveis deixam-nos passar no meio de sawadeekas cantados e sawadeekas mal amanhados, os nossos claros.
Ninguém está preparado para passar do estado de leveza ao de sonolência e torpor em dois segundos. É o que acontece mal nos encontramos na rua. Há ruído, cor, cheira a gazes de tubo de escape. As árvores são altas com ramos esguios e mal semeados de folhas. A luz é baça mas muito intensa. Alguém me abraçou e me aquece e não vejo quem é. Não, não está aqui ninguém, é a humidade. E há o peso. Mudei de planeta???
Continuemos.Viramos à esquerda. A pé. Só vemos turistas e alguns thais, poucos. A maioria não está a caminhar, está à porta da loja a ver quem passa. E nós caminhamos. Vemos lojas de alfaiates, Boots, montras com patos e frangos pendurados em série e prontos a comer. Cheira a fritos e a gordura e a molho de peixe. Seguem-se bancas de roupa directamente na rua. Na primeira há uma mini televisão em cima de um banquinho com uma grande antena. Vê-se mal. Mas não interessa os donos/espectadores estão sentados no outro lado do passeio e vêem a telenovela thai entrecortada pelas pernas de quem passa. Sorrio-lhes com ar matreiro de quem aprecia a ingeniosidade, retribuem com ar ainda mais matreiro.
Tenho a curiosa sensação de que há dois céus. Um tecto baixo onde quase toco com a cabeça e outro distante, para além dos arranha-céus e que não se vê daqui. Ao nosso lado o trânsito é constante e está quase parado. Metade dos carros são táxis.
Acompanham-nos a passo de caracol oferecendo os seus serviços, incrédulos perante a nossa teimosia em querer caminhar naquele calor-poluição-cheiro-humidade. Os tuc-tucs foram os primeiros a tentar a sua sorte. Em vão, para nós acabadinhos de chegar da Europa uma cidade descobre-se a pé.
Na ruelas perpendiculares a Silom road onde nos encontramos, há mercadinhos de comida, de roupa ou simplesmente becos de lixo e imundices. É sempre uma surpresa. Os perfumes que me invadem as narinas vão da mais simples merda ao maravilhoso jasmim que compõe os colares de flores que perfumam entradas de lojas e casinhas de espíritos. As minhas narinas estão num constante abre e fecha consoante o teor do cheiro que as assalta. Assim estou eu com Bangkok, abro-me, fecho-me. Esta cidade não é fácil. Mas eu também não disse que gosto do que é fácil.
Agora reparo, quase não há thais a caminhar, só turistas. Os thais estão nas lojas mas não entre as lojas. Olho então com redobrada atenção para o trânsito e percebo que é ali que estão, na sua maioria. Saltitam do ar condicionado dos carros para o das lojas. Nós devemos passar por palermas. Só os thais menos favorecidos é que caminham e quando o fazem é até à paragem do autocarro ou então até uma boleia providencial. Não que sinta a reprovação nos seus olhares, estes são sempre indiferentes ou sorridentes. Basicamente, se queremos andar a pé, suar, cheirar mal, o problema é nosso. Recordo-me agora de ter lido no guia que os thais se chocam com a forma desalinhada como acham que os europeus se vestem. E com o facto de serem sujos. Bom, por esta fama temos de agradecer aos nosso queridos vizinhos do norte. Mas para os thais europeus do norte ou do sul é tudo a mesma coisa. Nós ali a caminharmos que nem loucos confirmamos essa acepção. Salvamos a face com a minha propensão para a moda. Visto sandálias urbanas (nada de sandálias à Asterix) e um vestido fresco. Não tenho a cara impecavelmente maquilhada, nem as mãos arranjadíssimas. E sou grande, mas tirando isso não pareço uma turista chegada da bárbara europa, acho eu...
Passamos ao lado de várias lojas de conveniência. Entramos para comprar água. Para entrar passa-se pela porta invisível do ar condicionado. E saimos do mundo real que parece um sonho para o interior onde os sentidos parecem recuperar o controlo. A frescura artificial desperta-me. Ora deixa cá ver...Nivea, L'Oreal, Oil of Olaz é o mesmo que se encontra em todo o lado, só que aqui as gamas mais proeminentes são de produtos "Whitening". São linhas contínuas de prateleiras com estes produtos. Mas vamos ao que interessa...a água thai é boa, snobamos a Evian. When in Rome...
Passada a porta mágica do ar condicionado, estamos de volta ao mundo real do torpor. Continuamos. Dum lado e do outro da rua vemos centros comerciais, restaurantes e fast-food.Estamos a aproximarmo-nos do Metro aéreo, mais exactamente de Sala Daeng.


Para lá chegar atravessamos um cruzamento. Não há sinal para os peões o que não é boa notícia. Mas, em contrapartida há um mostrador por cima de cada semáforo que marca os segundo que faltam para ele passar a verde. Temos 50 segundos para tentar a atravessar como se não houvesse perigo. O mostrador só é respeitado pelo carros que seguem em frente. Os que querem virar não ligam a mínima. Mas já é uma vantagem termos de nos preocupar só com esses e não com toda a avalanche de carros que se prepara para tomar de assalto a nossa avenida dentro de 40 segundos.
Percorrida a avenida até ao fim, voltamos para trás. Daqui a 1 hora vêm buscar-nos para um jantar de aniversário. Já me acenaram com a perpectiva de experimentar das mais raras iguarias chinesas. Estou pronta para tudo, entre guloseima e curiosidade...e inconsciência. A cada passo do trajecto anseio pela água fresca do duche debaixo da qual me irei deixar ficar durante alguns minutos. Voltamos a passar pelos nosso "vizinhos" que vêem a telenovela. E eu a pensar no duche, e a imaginar as publicidades todas de gel duche com mocinhas em cascatas, não que isto me ajude muito. Entretanto, na rua surgem imagens familiares. Estou a criar referências geográficas. Silom road parece já menos quente, poluída e mal cheirosa. Passamos por uma pastelaria sino-japonesa . Fico a ganir frente à montra, eu adoro estes bolinhos, os que conheço e os outros também. Mas não será agora.
Agora, estamos a chegar à porta do hotel. O porteiro sorri-nos como se já nos conhecesse bem e nos esperásse. O cérebro lateja-me nas têmporas e fecho os olhos de prazer ao transpor a porta. Um sorriso afável, um sawadeeka e cá vamos nós a ansiar pelo banho e a pensar na fome que sentimos. É que a poucos metros do hotel passamos por uma senhora que vendia sopas de noodles feitas na hora.Eu sei, sopas quentes naquele calor, parece mentira mas está a apetecer-me.
Bom vou preparar-me, espera-me um banquete chinês.
(to be continued...)

1 Comments:

Blogger Pitucha said...

Só agora tive tempo de ler este longo post e continuo entusiasmada com a tua viagem. Até senti o calor peganhento na pele...
Beijos

segunda-feira, julho 17, 2006 8:53:00 da manhã  

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