quarta-feira, janeiro 05, 2011

Perdoem-me a dúvida de cidadã comum, mas é que também voto e vivo neste mundo e tal

Posso ter pecebido mal, mas os juros exigidos por quem compra Bilhetes do Tesouro sobem ou descem em função do risco dos mesmos? Ou seja se não houver grandes dúvidas quanto ao seu cumprimento ou quanto à economia do país em questão, o juro não será tão alto, é isso? Se sim, para além do juro da emissão de Bilhetes do Tesouro ter subido hoje, houve uma procura superior, bastante superior à emissão anterior. Ou seja, quem compra desconfia mais, mas quer comprar mais... Do ponto de vista da desconfiança e dúvida pura, que até acho legítmas, este comportamento não faz sentido. A fazer sentido será com base noutros critérios. Quais são?
Eu não compro dívida, bilhetes do tesouro, o que for, dum país que acho que vai falir. E acima de tudo não compro ainda mais, do que já comprava antes, quando as coisas pareciam mais calmas. Claro está, isto sou eu, que ao comprar desejo não perder tudo, até porque o meu tudo não é tanto assim. Donc, qual a lógica aqui? Há quem queira ganhar muito em pouco tempo, porque acha que isto pode dar o berro mas não nos próximos 6 meses? Ou há quem queira ganhar muito dinheiro em pouco tempo à conta da dúvida que não é tão grande assim mas que para já se diz que é, de que o país não cumprirá os seus compromissos e por isso sobe o juro mas , claro, compra que se farta, o que dá a entender que dali espera alguma coisa? Que têm algum interesse? Ou que arriscam mais só porque o potencial de retorno é maior? Mas se o potencial de retorno é maior é porque põem a hipótese de que existe um potencial de retorno, não?
uhmmm...
Acrescento: Ou seja, isto significa que quem compra acha que dentro de 6 meses o retorno será pago, ou porque a situação estará melhor ou porque se recorreu ao fundo da UE e porque entrou cá o FMI, etc... o investimento será pago e portanto compram. Não acredito que se compre quando há certeza de não retorno. Ou seja, mais uma vez, o risco de não etorno é na realidade baixo ou aceitável. Mais aceitável será porque jogam com a subida de juros. Mais rendimento. Se a certeza ou quase certeza de incumprimento existisse das duas uma, ou não compravam, ou iam comprando cada vez menos, ou preferiam deixar os juros como estão para ter a certeza de que haverá pagamento, enfim...O Banco da Suíça optou por deixar de aceitar dívida irlandesa como "colateral", não sei se com razão ou sem ela, mas pelo menos faz mais sentido...
Acrescento de 10/01/2011- escreve hoje Helena Garrido no JN:

"A nova tempestade financeira que se abateu sobre Portugal, todos o sabem, é determinada pelo anúncio de duas emissões obrigacionistas na quarta-feira. O que as instituições financeiras estão a fazer é a explorar a possibilidade de ganhos adicionais na compra de novos títulos a taxas mais altas. "

De acordo com a minha análise é de facto isto que se passa. De outra forma, a aquisição de BT o OT apesar do aumento do juro porque aumenta o risco de incumprimento não faz sentido. Do ponto de vista da psicologia humana não faz sentido e apesar de tudo, os especuladores são pessoas. Apesar de todas as teorias económicas.

4 Comments:

Anonymous Miguel Carvalho said...

A quantidade de procura não tem na realidade grande significado.
Nestas vendas, os potenciais compradores têm que declarar quanto e a que preço querem comprar. Depois o vendedor distribui conforme as ofertas que recebeu.

Ora se eu sinalizar que estou interessado a comprar, mas só se for a "metade do preço" do normal (neste caso seria ao dobro do juro), eu estou a fazer uma proposta que o vendedor nunca vai aceitar, mas que não deixa de contar como procura.

Já agora, não é só o risco do pagamento em si que conta, mas também a variação cambial. No caso português nem interessa muito, mas se comprar dívida americana e achar que o dólar vai valer mais quando a dívida for paga, então estou disposto a aceitar juros mais baixos.

quarta-feira, janeiro 05, 2011 5:25:00 da tarde  
Blogger Sofia C. said...

Obrigada pela explicação, Miguel Carvalho:)
Significa então que houve mais propostas de compra embora a um preço mais baixo...é isso? Se o juro subiu então foi porque o Estado português teve de aceitar muitas delas porque precisa e não pode recusar demasiado? Nessa altura quem compra não o faz forçosamente porque acha que o risco é menor ou maior (embora também, talvez), mas porque sabe que aquele Estado precisa de vender e aproveita a oportunidade para tentar impor as suas condições e fazer um "negócio" mais rentável do seu ponto de vista,será isto?

quarta-feira, janeiro 05, 2011 6:30:00 da tarde  
Anonymous miguel carvalho said...

Sim, houve mais propostas a um preço mais baixo (juro mais alto). Mas a quantidade de ofertas não tem grande significado.

Sim, o Estado teve que aceitar os preços mais altos. Não tenho a certeza, mas julgo que o Estado tem bastante flexibilidade em escolher na altura o que quer e não quer aceitar.

Não diria que os compradores se aproveitam da necessidade. Isso aconteceria se houvesse 2 ou 3 compradores, mas existem muitos mais, não têm poder negocial. Se o juro subiu é principalmente porque os compradores consideram que há mais risco.

quinta-feira, janeiro 06, 2011 12:49:00 da manhã  
Blogger Sofia C. said...

MIguel Carvalho, muitíssimo obrigada:)
Escrevi este post sobretudo tendo em conta o que li ontem nos jornais que davam a entender nos títulos que a coisa era muito grave e má. Lendo os artigos a impressão era já um pouco diferente. Se algo aprendi ao longo deste último ano, foi que não devemos lançar foguetes antes da festa nem anunciar catástrofes prematuras. Calma é o que se quer.
Bom, isso e que não me devo fiar nos jornais, mas essa conclusão vem de trás. Leio-os a título indicativo.
Mais uma vez muito obrigada pela paciência e disponibilidade para me explicar um pouco da lógica subjacente a estas compras e vendas de bilhetes do tesouro.

quinta-feira, janeiro 06, 2011 12:53:00 da tarde  

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