sexta-feira, junho 04, 2010

Reflexões de uma simples cidadã comum II

Lê-se o seguinte na entrevista de Paul de Grauwe ao Público de hoje:

"A actual crise é só uma crise de dívida pública ou é mais do que isso?

A minha análise é que a origem da crise não tem nada a ver com dívida pública, mas com a acumulação de dívida privada. Com excepção da Grécia, que tem também um problema de dívida pública e má gestão do orçamento. Mas não é o caso em Portugal, Espanha ou Irlanda. O que aconteceu sobretudo em Espanha e na Irlanda, foi uma expansão brutal da dívida privada, com "booms" e bolhas financiados por dívida, que entrou em colapso. A economia caiu, e os governos tiveram de assumir o problema, o que provocou o aumento dos défices orçamentais. Estes dois países respeitavam todos os critérios do PEC, tinham excedentes orçamentais e a dívida caía de forma espectacular em percentagem do PIB. Ou seja, estavam a fazer o que era correcto e o que os alemães queriam que fizessem. E, no entanto, estão em apuros. A análise de que a crise foi provocada por esbanjamento, gastos excessivos e défices elevados não é simplesmente verdadeira."
Tenho também esta perspectiva do que se passou e está a passar. Devo dizer que me desilude a falta de coordenação entre membros da zona euro. A posição da Alemanha corresponde à decisão da maioria dos alemães de elegerem um governo de direita que coloca a contenção da despesa nos píncaros da economia ...dos outros, dado que a sua anda há anos feita um yo-yo acima e abaixo dos 3% do PIB. Os jornais ditos de referência da Alemanha não hesitaram em redigir títulos e artigos imbuídos do mais básico preconceito sobre os países do sul a que não escaparam os anglosaxónicos. Apesar de também o Reino Unido ter um défice e uma dívida semalhantes às nossas.
No entanto, os dadores de lições sentem-se confortáveis nas suas posições de auto-proclamada superioridade, a self-righteousness é das características mais estúpidas do ser humano. É este preconceito dos povos que está pouco disfarçado nos argumentos que têm manipulado para convencer os seus eleitorados e os governos dos nossos países a agir. Martin Wolf no Finacial Times tem-se esmerado em parábolas redutoras e idiotas sobre formigas e cigarras. Tudo isto tem um nome e é: preconceito idiota (haverá outro ?).
E enquanto existir e for louvado como realismo não haverá uma União Europeia que nos congregue. Pelo menos não enquanto não se sentarem todos à mesma mesa, capazes de assumirem os erros que TODOS cometeram, as suas coresponsabilidades. E assim, concluirem que é em conjunto que têm de agir em função do que permitirá de facto acelerar o crescimento económico de TODOS. Independentemente da histeria especulativa irracional ( e a muito racional também).
E ter a coragem de comunicar aos respectivos eleitores o que se passa, porque são tomadas certas medidas e não embarcar nas desculpas clássicas que permitem sacudir a água do capote.
A vantagem de tudo isto: saber em que pé estamos, o que pensamos de facto uns dos outros. A Europa constrói-se nas escolas, em casa, nos media´, nos exemplos que damos todos, e que dá quem nos representa. Nas imagens que criamos do que somos. Por esse motivo, o programa Erasmus será a iniciativa mais eficaz de construção europeia.
Construção. Nesta obra nem todos querem prosseguir a construção. Temos de recomeçar a construir.

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