quarta-feira, março 25, 2009

Olha o que me tinha de calhar na rifa

O meu vizinho da frente anda a aprender português na sua versão brasileira. Mal ponho o pé fora de porta ou no último degrau da escada quando regresso abre a porta de rompante e aproveita para uns dedos de conversa na língua de Vinicius. E eu acedo, lá lhe vou respondendo na de Camões. Seria motivo de júbilo não fosse o senhor ser tremendamente chato...e cheirar mal, o que me leva a sentir a mais profunda simpatia e solidariedade pela brasileira que lhe dá aulas de conversação.
A coisa acontece um bocadinho à traição. Hoje, por exemplo, regressava a casa cansada, pronta para entrar em casa e "arrumar as chuteiras" quando ele abre a porta sem aviso e cá vai disto. De acordo com o meu código pessoal e intransmissível de boa conduta com a vizinhança em país estrangeiro, tolero a coisa e mantenho uma atitude amistosa.
Hoje, contou-me que lê todos os dias o Correio de Manhã online. Mantive-me impassível, ou pelo menos tentei, mas não posso jurar que não me tenham tremido as sobrancelhas. E acrescentou: isto está assim tão mal por lá? É só crimes e desgraças. Lá expliquei que aquilo para mim é um tablóide (para mim já disse) ao estilo do Het Laatste Nieuws, igualmente dado ao sensacionalismo. Aaah, já pensava que o país estava muito perigoso. Pois, pois, não mais do que a maioria dos países europeus. Respondi-lhe isto porque é a minha mais profunda convicção.
Já não é a primeira vez que me perguntam se Portugal mergulhou no caos depois de terem lido jornais portugueses, inclusive o Público. De facto, quem não conheça o feitio português lê à letra o que nós dizemos e ainda acredita que somos uma choldra ao estilo da pior ditadura africana. Dou por mim a explicar, não, não, claro, não é o paraíso e temos problemas mas àquilo que lêem descontem metade... no mínimo, os portugueses têm uma necessidade de automaledicência. É uma espécie (de magazine...não) de catárse nacional, de terapia para desopilar o fígado e ficar tudo na mesma como a lesma.
Depois, também há os que visitam o país e vêm de lá muito espantados: afinal aquilo até é desenvolvido, há estradas, há pontes, há autoestradas com aquela coisa que se passa sem parar, os carros param no vermelho, há telefones, água nas torneiras, há museus e hospitais, há Metro, senhores! há Metro e as pessoas esperam em fila para entrar nos transportes. E há internet. Sim, respondo com calma sem deixar que a coisa tampouco descambe para o exagero. É um país normal da Europa meiridional ocidental, com as respectivas qualidades e defeitos enfim...
Quem vive no microcosmos português talvez se aperceba, ou talvez não, mas a imagem que os nossos media por vezes passam de nós próprios é de um exagero estúpido.

9 Comments:

Blogger Sinapse said...

Muito bem observado, e muito bem dito!

... à parte isso, do post estar muito bom, tenho a acrescentar uma risadinha ... a risadinha que não contenho ao imaginar se fosse eu a vizinha do teu vizinho! a sorte que ele ia ter! aprendia a dizer Bom Dia e Obrigada/o e pouco mais ... que eu em geral não tenho muita paciência para conversé ... ui, e muito menos com um chato mal-cheiroso! lol!

quarta-feira, março 25, 2009 8:28:00 da tarde  
Blogger oscar carvalho said...

Ontem no café li o citado - estava ali à mão de semear! e tomei nota dos títulos:
1 - Viola sobrinhas gémeas de 11 anos.
2 - Marinha grande: viola familiar
3 - Menina de 6 anos abusada pelo Tio.
4 - Ex-companheiro rapta e viola
5 - Solto após atirar ácido à companheira
6 - Filha nega agressão à mãe octogenária.
Caramba!

quarta-feira, março 25, 2009 9:08:00 da tarde  
Blogger Claudette Guevara said...

Dizer mais o quê? Que vale a pena ler isto?

Há que salientar que os meus amigos Europeus (leia-se: Erasmus), depois de passarem aqui uns dias dizem: se não fosse o Sol e o preço das coisas, este país não valia a pena viver.

quarta-feira, março 25, 2009 10:51:00 da tarde  
Blogger Carlota said...

Outro media de maior difusão que não ajuda nada, antes atrapalha, a transmitir uma boa imagem do país, é a RTP Internacional. É absolutamente deprimente!
Um dia destes hei-de pôr-me a visonar a sua programação e escreverei sobre este assunto, com fundamento.
Quanto ao vizinho, tem cá uma lata! Havia de ser comigo, havia.

quinta-feira, março 26, 2009 10:55:00 da manhã  
Blogger Sofia C. said...

Sinapse,

Obrigada,obrigada. Pois eu lá lhe vou respondendo com a chave na porta. De facto, chato e mal cheiroso é dose!

Oscar Carvalho,

Está tudo dito, mas quem lê quer é descgraças, vende mais, estará o Correio da Manhã com tão boas vendas?

Claudette,

Não se pode agradar a todos, mas acho sempre estranho que retira conclusões dessas ao fim de uma simples visita. Eu faço questão de achar que vale a pena viver empraticamente todos os locais da terra onde não haja guerra. Tudo vai do que queremos da vida, claro.

Carlota,

A RTPi, dava um tratado, fico a aguardar um post teu sobre o tema;-)
O vizinho tem lata, tem e muito tempo para desperdiçar, não tem mais nada que fazer, estás a ver o estilo...

quinta-feira, março 26, 2009 4:57:00 da tarde  
Blogger Joana said...

Desculpem mas tenho de reagir: essa reacção desses Erasmus só pode ser de estudantes jovens e inconsequentes. Que há muita coisa mal, sem dúvida, mas a verdade é que há MUITA coisa mal nos outros também, e a Bélgica é um óptimo exemplo. Já para não falar na muita coisa BOA de se viver em Portugal. Como, aliás, testemunham os muitos estrangeiros que aí vivem...

sexta-feira, março 27, 2009 10:05:00 da tarde  
Blogger Claudette Guevara said...

Claro, Joana. Pode ser reacção de jovens inconsequentes e com o espírito rebelde dos 20. Demasiado limitador. Mas este não é o país deles, filtram a informação de forma diferente dos nativos.

Eu sou muito crítica em relação ao meu país e suas gentes. Não ao nível do desenvolvimento, mas ao nível das relações consigo e com os outros. A necessidade de automaledicência, como dizes Sofia, até já passou para mim. Admito que me revejo em muitas palavras que dizes. Mas sinceramente não acho que seja uma condição inerente ao português. Acontece com todos os povos.

É como dizes acima: "Julgamos os outros pelos nossos padrões de comportamento...", quer para o positivismo, quer para o negativismo.

domingo, março 29, 2009 3:24:00 da tarde  
Blogger Sofia C. said...

Claudette,

Sê crítica quanto quiseres e entenderes. Não estava tanto a falar do cidadão, mas dos nossos media.

Não acredito nada nas críticas melodramáticas. Considero-as típicas de quem fala, fala e não muda nada. E atenção, não estou a dizer que é este o teu caso. Desconfio dos acessos arrebatadores de auto-flagelação, a herança judaico-cristã "non fa per me" como dizem os italianos.Sinceramente acho que os nosso media carregam mais nessa tecla do que os dos países que leio. Confundem isso com informação.

Oscila-se entre o somos uma merda, ou somos os maiores.

E se nos equilibrássemos duma vez por todas?

A crise presta-se muito ao exacerbar da auto-crítica destrutiva. Pés bem assentes no chão e calma,é o que me recomendo a mim própria.

domingo, março 29, 2009 4:22:00 da tarde  
Blogger AP said...

Brilhante. Tiro o chapéu a tão excelente post!

Faço mea culpa e assumo que, até vir para Angola, também eu era uma má língua incorrigível sobre Portugal... Já estou mais moderado.

Permite que faça uma citação deste seu texto no meu blogue?

quinta-feira, abril 02, 2009 10:41:00 da manhã  

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