quinta-feira, dezembro 11, 2008

Liu Xiaobo

Deparei-me com o nome de Liu Xiaobo ao ler este artigo no Epoch Times. Durante a viagem à China e já antes até, me questionava sobre a dissidência na China. As opiniões que se ouvem deste lado , do nosso entenda-se, oscilam entre o repúdio da China mais primário amalgamando regime com povo e cultura (amálgama que tem o equivalente nos chineses que confundem governo chinês com China), e a compreensão e tolerância mais ingénuas. Depois da ida à China não fiquei com ideias mais claras. Em Pequim e Xangai o desenvolvimento económico é notório, impressionante mesmo, mas a imprensa e tv são claros orgãos de propaganda. Encontram-se no entanto livrarias com livros noutras línguas, nomeadamente em inglês. Muito frequentadas e com as novidades que encontramos por aqui. Obviamente acessíveis apenas a uns happy few, sendo que lá os few são milhares ou alguns milhões. No hotel tínhamos CNN e BBC, a internet era grátis e rápida nos quartos, inclusive dum hotel num hutong. Todos os sites que consultei eram acessíveis.
Entretanto, o que passa nos medias é uma exaltação do nacionalismo chinês que formata sem dúvida uma parte da população (grande? pequena? não sei). E quem está contra? Estarão os chineses anestesiados com a perspectiva de riqueza, com a perspectiva do fim da miséria? Não são perspectivas negligenciáveis, sobretudo para quem viveu na pele a miséria e a revolução cultural. E são as mesmas perspectivas que nos vão calando a todos.

Conheço alguns autores chineses que escrevem no estrangeiro preferindo manter-se à distância do regime. Curiosamente, Qiu Xiaolong (ler: djou xiaolong) encontra-se facilmente nas livrarias inglesas de Pequim. Mas em quinze dias pouco se vê, a lingua é uma barreira e a verdade é que nunca ninguém ousou verbalizar a mais pequena crítica ao regime ao contrário do que aconteceu na viagem ao Cambodja. O que não deixa de ser eloquente.

Tudo isto para dizer, que sob a bulício empreendor das duas grandes cidades chinesas, da sua azáfama e aparente indiferença a questões políticas desconfio que correm outros rios, ainda que pequenos e frágeis. A prova está aqui: lista de dissidentes chineses.
Um exemplo é Liu Xiaobo. Liu Xiaobo é um activista chinês, representante da Press China, braço chinês da organização que defende a liberdade de expressão dos media. Acho mais interessante e muito informativo saber o que pensa uma pessoa que luta por estes direitos correndo o risco de prisão, de perder a vida até. Por isso deixo aqui um artigo que ele escreveu sobre a corrupção e a liberdade de imprensa na China. E deixo igualmente uma entrevista que deu ao Der Spiegel (traduzido para francês) por ocasião dos JO de Pequim. Liu Xiaobo foi recentemente detido pelas autoridades chinesas.

Na BBC News de hoje encontramos um artigo sobre as detenções de peticionários em hospitais psiquiátricos em Xintai, província de Shandong. Apesar das ameaças, há chineses que reclamam , que se queixam. A consciência do direito à reparação, o direito à queixa e sua divulgação denotam o surgimento duma consciência cívica da China distinta da pertença ao partido único. Com a internet como instrumento de divulgação esta dissociação de identidade crescente e acentuada pelos casos de corrupção poderá ser um dia o motor de reformas políticas num governo que teme o caos e a revolta. Quando governo deixar de ser para eles sinónimo de país. Será? Oxalá.

Acrescento: Liu Xiaobo encontra-se detido entre outros motivos provavelmente por ser coautor e cosignatário da "Charter 08". Para saber mais sobre a Charter 08, ler este artigo do New York Times.

2 Comments:

Blogger Irreligious said...

A grande crítica que se faz à China Moderna é a "Ausência de liberdade" - Mas sejamos francos, o conceito de "liberdade", ao contrario daquilo que possivelmente desejariamos, é um que tem apenas um valor intelectual. Na prática, qualquer pessoa a que seja perguntada quais os factores que precisa para ser feliz, dirá coisas como "Saude, dinheiro, trabalho". Liberdade, aparece prai em 10º lugar na lista de necessidades das pessoas.

Os Chineses não são excepção nisto, e a verdade é que o regime ditatorial (mas não totalitário) Chinês tem uma extrema eficácia: Tirou 300 milhões de Chineses da Pobreza, e vai restaurar em breve a China como a maior potência mundial, algo que historicamente a China sempre foi, excepto nos últimos 400 anos.

Ora, tendo em conta que:
a) O regime ditatorial Chinês a bem ou a mal é eficaz
b) A liberdade é um factor importante mas menor para a felicidade das pessoas
c) Os Chineses estão mais ricos, portanto podem dedicar-se a factor "menos importantes"

É de esperar que o regime ditatorial, para manter a sua eficácia e ascendente, comece a fazer concessões ao nível de liberdades individuais - Na prática, um pouco como o que aconteceu em Espanha, ou na América do Sul, muitas ditaduras serão vitimas da sua eficácia no desenvolvimento (económico) do seu País.
Talvez seja isso o que aconteça na China.

PS: Woa, acho que fiz um comentário um bocadinho "apologista" mmm não gosto, mas creio que é verdade.

sexta-feira, dezembro 12, 2008 10:53:00 da manhã  
Blogger Irreligious said...

Outro comentário mais rápido é simplesmente: Se a Democracia funciona num pais gigante como a India, tambem pode funcionar na China :P

sexta-feira, dezembro 19, 2008 10:57:00 da manhã  

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