sábado, maio 24, 2008

Impressões depois do regresso

Tendo já escrito sobre o aspecto físico e gastronómico do que vi falta escrever sobre o que mais me marcou - as pessoas.

Começo pelo princípio. Chego a Macau e descubro que o que eu achava que eram os macaenses não é o que eles acham que são os macaenses. Eu explico: para mim macaenses eram os naturais de Macau . Para eles macaenses são os mestiços chinês/português, depois há os chineses macaenses e os portugueses macaenses. Ok. Registei.

Numa terra tão pequena aquilo soou-me a esquisitice a mais, mas a história é deles e aquela será a melhor designação para a realidade em que vivem.
Macau tem meio milhão de habitantes, desses uma minoria são mestiços, a maioria é de origem chinesa, há alguns portugueses e emigrantes sobretudo filipinos e chineses do continente. Os filipinos predominam na hotelaria e restauração assim como nos trabalhos domésticos. Pude conhecer vários no hotel onde estava e para além de bons profissionais eram muito simpáticos.
No entanto, nem sempre são bem vistos pela população. As atitudes variam. Da aceitação claro, à rejeição quando são vistos como concorrência laboral mais barata. Na mini classe luso/mestiça pude ouvir comentários dignos duma má telenovela brasileira a propósito dos serviços domésticos que prestam as filipinas. Pelos vistos há quem queira serviço barato/explorador e ultra profissional. Fiquei com a impressão de que estas pessoas não poderiam viver noutro sítio que não Macau, uma espécie endógena e não adaptável. Criticam Portugal do que ouvem dos familiares que lá vivem, criticam Hong Kong, chineses continentais, filipinos, o governo macaense (mas não se mexem para mudar nada) e o diabo a sete, safa! Lá critcar criticam e imprensa não é excepção, parecendo bastante livre embora não tão contundente como a de Hong Kong.
Sobre os emigrantes da China continental também não consegui ouvir loas. Há milhares de chineses do continente a trabalhar em Macau na tentativa de melhorar a vida. Na boca dos macaenses são porcos, brutos, rudes blá,blá,blá. Alguns até serão, mas é dar-lhes tempo, digo eu. Há também muitos chineses ricos que vêm jogar nos casinos. Esses compram os apartamentos novinhos em folha que brotam do chão macaense como cogumelos. Resultado: inflacção dos preços do imobiliário e decréscimo do poder de compra dos macaenses que não têm visto os seus salários aumentarem em consequência.
Do meu contacto com os jovens registei uma grande ignorância sobre a China mas uma abertura e flexibilidade em geral. Curiosamente a RPC e os media macaenses exaltam o grande patriotismo de Macau em relação à China. Será a técnica da publicidade? De exaltar as piores características do produto...fiquem sem perceber. Onde senti curiosidade foi nos jovens chineses do continente que encontrei, sempre mortinhos por uma conversinha em inglês e cheios de vontade de ver mundo.
O contacto com os chineses continentais foi o meu primeiro contacto com A China. A verdade é que Macau e Hong Kong são agora parte da China, mas não são verdadeiramente "China", não em termos de regime e cultura. Isto foi me dito por chineses antes da minha ida e de facto pude constatá-lo. Ainda que para uma europeia aquilo já pareça muito asiático o contacto com alguns chineses da RPC permitiu-me perceber a diferença.
Os jovens como disse são curiosos e espontâneos num contexto informal. Acho que a curiosidade foi mesmo a característica que mais me chamou à atenção. Os chineses continentais mais velhos permitiram-me vislumbrar o que é viver num regime totalitário. Nunca tinha tido tal experiência. Parecem cassettes de propaganda. Nunca percebi se diziam o que pensavam ou o que tinham de dizer de qualquer forma. Já esperava que tivessemos perspectivas da realidade muito diferentes. O que me chocou foi a falta de auto-análise, de auto-crítica. Ao ouvi-los falar a China é um exemplo de tudo. Conseguiam justificar inclusive os massacres de Tianamen. Nunca tentei contrapor demasiado, receei prejudicar algum deles, sabe-se lá quem ouve e o que lhes poderá acontecer.
Estaria talvez a imaginar coisas, mas o estado de espírito era este. Nunca tinha vivido assim. Escusado será dizer que jamais poderia viver num regime destes, é sufocante. Muitos há que ignoram tudo e falam da comida, outros há que proferem afirmações tão estranhas que não sabemos se estão a tentar dizer alguma coisa nas entrelinhas ou se aquela é mais uma pérola.
Num exercício de auto-crítica feito no final da semana para identificar lacunas não lhes arranquei uma frase com conteúdo, só banalidades. Já os macaenses era outra história. Abertos , auto-críticos, muito mais conscientes das suas lacunas, ou pelo menos com menos pruridos em assumi-las frente aos outros. Há uma certa arrogância em proclamar-se o máximo e não conseguir admitir erros do passado. Felizmente em Hong Kong há uma imprensa arejada onde se podem ler artigos muito pertinentes e destemidos sobre a realidade chinesa. Já para não falar nos artigos escritos por certos intelectuais chineses que defendem a democracia. Entratanto enquanto lá estive foi preso mais um jornalista chinês , na RPC. Em Macau foi detido um homem por ter escrito num chat como é que poderiam apagar a chama olímpica. Tudo isto é ambíguo. Será o resultado duma fase transitória para um regime mais democrático ou apenas um bicho estranho e híbrido?
Quem vai a Macau em visita de turismo não notará provavelmente nada disto. Verá o charme da cidade, da aldeia piscatória de Coloane, a delícia culinária, a simpatia do cidadão comum (apesar da má fama de que gozam os cantoneses junto doutros chineses). Ficará estarrecido com o kitsch dos casinos. O kitsch esse grande senhor em terras orientais. A verdade é que a tudo nos habituamos. Ao fim de 3 semanas até já olhava de outra forma para o Grand Lisboa ou para o Sands (outra coisa inexplicável, um casino/hotel que mais parece um terminal de aeroporto foleiro) ou ainda para o Fisherman's Wharf - uma espécie de Disneylândia ou algo assim, com cópias duma aldeia minhota, de Itália, Amsterdão onde se pode ir comer. Tudo isto nos choca, mas vistas bem as coisas quando é que muitas daquelas pessoas poderiam visitar os verdadeiros locais?
O mais curioso é o paradoxo. A China diaboliza o Ocidente (que para eles são os EUA, estamos feitos!!) e destrói o seu magnífico património histórico que substitui por cópias da Europa do séc XIX (bairros inteiros construídos a imitar Paris, Londres, mansões da época...). Abre a sua economia,torna-se cada vez mais interdependente e estimula o nacionalismo. É muito estranho, mentiria se não o dissesse. Mas é o caminho deles. Do nosso lado também há preconceitos e ignorância a rodos sobre o que é a China...e medinho e gula pelo mercado que se abre.
E da minha parte uma curiosidade sempre maior. Fiquei a saber que esta descoberta terá de ser gradual. Isto foi só Macau, imaginemos a China a sério... ficará para Outubro.

1 Comments:

Blogger ma grande folle de soeur said...

Fantástico. Q bela viagem em perspectiva! Abraço

domingo, maio 25, 2008 1:32:00 da tarde  

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