quarta-feira, outubro 10, 2007

País no divã

Tenho acompanhado pelos jornais a posição de João Cravinho sobre a corrupção em Portugal, reacções do governo e do grupo parlamentar socialista, proposta do PCP, artigo de Vasco Pulido Valente, etc...
Assitir à reacção do nosso mundo político às excelentes propostas de João Cravinho, ele próprio socialista, faz-me pensar numa consulta de psicanálise. Aliás o próprio Cravinho fazer essas propostas acentua a sensação de autoanálise. Aqui estou eu a espreitar uma autoanálise dum qualquer paciente que em parte consciente, decide autoanalisar-se, auto-criticar-se, autocurar-se. Só que entre deitar-se no divã e mudar comportamentos duma vida vai uma grande distância. Percorrível, não esmoreçamos, mas ainda assim longa. Muito raramente curta. E parece que não vai ser este caso a excepção que confirma a regra.
Cravinho, qual super-ego racionaliza e propõe soluções.É a consciência. Felizmente existe, ou finalmente existe, ainda que isolado. Mas, há o ego (partidos políticos, governo, quantos de nós) que se ilude em orgulhos e interesses de horizontes curtos, que repete os mesmos erros, instalado nas suas certezas aparentemente seguras.
Quantos no nosso país já se contam do lado do "consciente", i.e de João Cravinho? Será que vamos assistir a um ser que se autoreforma e cura? Seria bom, penso mesmo que será a única solução. Infelizmente, esta terapia vai demorar muito tempo. O pobre consciente parece ínfimo e isolado perante o egoísmo, teimosia e orgulho do ego.
Só espero que a terapia resulte. Porque submerso permanece o inconsciente. Massiço, primitivo, irracional, tende a vir à tona quando não lhe dão ouvidos.