quinta-feira, setembro 27, 2007

Saudades do Presente

Levantou-se pouco depois de tocar o despertador. Sem difilcudade. Estava acordada há alguns minutos. Olhava à sua volta, apreciava o fofo da cama. Espreguiçou-se e deixou-se estar até que o despertador tocásse. Levantou-se agilmente, sem a inércia que sentia habitualmente em dias de trabalho. Era Domingo. Estava num hotel de Lisboa. Dirigiu-se à janela que cobria a metade superior da parede à sua esquerda. Abriu os cortinados lentamente.


O céu estava azul leve, lavado. Límpido. O ar adivinhava-o fresco tépido a anunciar o fim do Verão. Encostou a cabeça ao vidro, vislumbrou o Marquês à esquerda ao fundo e sem dificuldade o Parque Eduardo VII. Na estrada só passavam táxis. Era Domingo.


Alçou o ascultador, discou o número do quarto que já conhecia e esperou alguns segundos. "Sim filhota", "Dormiram bem", "Muito bem". Combinaram descer dali a pouco para o pequeno-almoço. Sentia-lhes a alegria dos momentos que passavam juntos. Sentia-os bem, ocupara-se de tudo e agora sentia-os bem. Ela também.


Desceram juntos. Riram-se de alguns episódios da véspera. O pai contente a rir, a contar as memórias da sua juventude naquelas mesmas ruas de Lisboa, a mãe a provocá-lo sem malícia. Todos bem. Sentiu uma nota. Foi nessa altura que lhe disse em surdina: "Tens que começar a habituar-te,o teu pai já não tem 50 anos...". E riram mais. A frase ficou-lhe em pano de fundo. Sentiu a nota. Era bela e tinha um não sei de quê de alegre tristeza. Ou de triste alegria. Ou apenas de ...não sei o quê.
Olhava-os agora sentados à mesa, comiam calmamente, gulosos. Bem dispostos. Era tudo duma incrível banalidade. Ali estava sem pretensões e sem se fazer anunciar: a sensação de bem-estar.Deixara-os tratar do resto. Sabia que ali ainda era a filha. Eles assumiam a direcção por momentos embora a deixassem tratar daquelas coisas que eles menos conheciam, reservas na internet, restaurantes novos, ruas e esquinas a que já não iam há tanto tempo... E olhava-os entre golos do café com leite. Ouviu a nota. Aquela mesma nota.
Desceram a Avenida da Liberdade àquela hora matutina. Ela partia dali a pouco. Aquele era um momento solene de despedida disfarçada de passeio matinal. Encheu os pulmões. Encheu os olhos. Encheu os ouvidos, tentou imprimir a memória. Tocava-lhes com frequência. Estavam ali e estavam bem. Estavam sempre bem. E sentiu o prazer do momento que vivia. Soube que um dia se iria lembrar deste momento simples . Dos sorrisos, do olhar molhado e doce que a idade amainou. Das conversas vivas e inteligentes. Da genica ainda. Da destreza ainda. A forma como se aninhavam nos seus abraços, sempre a qualquer pretexto. E soube sentir o travo doce deste momento com o amargo daquele futuro em que tudo isto seria uma memória. Abraçou-os com muito carinho, outravez e outravez e custou-lhe mais a despedida.


4 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ir a casa é tão bom. Mas há ali 10 minutos finais que têm um sabor tão amargo.

=)

sexta-feira, setembro 28, 2007 2:43:00 da manhã  
Blogger Pitucha said...

Que post tão bonito!
Beijos

sexta-feira, setembro 28, 2007 10:47:00 da manhã  
Blogger S said...

Claudette,

E olha que o passar do tempo não ajuda. Parece-me cada vez mais difícil. Sofia :-)

Pitucha,

Obrigada:-) beijocas, Sofia

sábado, setembro 29, 2007 12:45:00 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

Este é, sem dúvida, um dos melhores textos que já li neste blog. Está sentido, quer emocional quer espiritualmente, muito bonito !!! Talvez seja uma priviliada, sim porque ter amigos é um privilégio, mas ao lê-lo as imagens das personagens aqui retratadas surgem no meu pensamento como se de uma realidade se tratasse. Lindo !!!!!!!!!! Tão bonito que espero hoje ter conseguido o que ando a tentar há já algum tempito......

segunda-feira, outubro 01, 2007 11:53:00 da tarde  

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