Almoço pouco habitual numa cantina
Estavam três amigas falando, sendo que duas do mesmo lado e a terceira frente a uma delas. As férias duma, o casamento e lua de mel da outra, vacinas, trabalho, reuniões e coisa e tal. Sem que tivessem consciência disso uma delas calou-se. Na era habitual, era sempre ao desafio, comentário puxa piada que puxa comentário e assim por diante. Calou-se e as outras duas não repararam logo, ou sim. Olhavam-na insistentemente como que a dar-lhe a deixa para que voltásse a entrar na roda.
"...acho que me rebentaram as águas", disse finalmente a meia voz, num misto de alívio, medo e incredulidade. Pausa na conversa. As outras duas entreolharam-se. Fizeram aquele olhar que fazem as pessoas que nunca tiveram filhos e que é o que eu faço: olhar de espanto e de ignorância.
Vamos ter de manter a calma, pensou uma delas e perguntou: " Estás com dores?". Essencialmente esta era a sua preocupação : "que não sofra, por favor, que não sofra". A resposta veio rápida e segura "Não". Muito bem. Para quem nunca tinha tido filhos, como ela, o sofrimento do parto é uma coisa meio mítica e aterrorizadora. Desconfiava que só 9 meses de gravidez podem levar ao desejo de que tudo aquilo termine para que finalmente tudo possa começar.
O que fazer? A melhor coisa é por-me no lugar dela, onde nunca estive, pensava e fazer o melhor que posso. "Não te vou deixar sózinha, estou com o carro, levo-te a casa e depois ao hospital."
Manter o sangue frio, repetia-se mentalemente a grávida, enquanto lhe tremiam as mãos e avisava o companheiro do que sucedia. "Não, que não tinha a certeza, mas aquilo não parecia xixi e não parava de sair". No seu olhar predominava agora o nervosismo e o desconforto. "Isto é estranho, tenho vontade de me lavar e mudar de roupa".
Passagem por casa a conselho do hospital, afinal é o primeiro filho e do rebentar das águas ao nascimento... E lá foram elas, uma leve e nervosa, a outra pesada e nervosa. "Vai tudo correr bem, vais ver" dizia o que lhe passava pela cabeça a contento das duas. Mas o que é que se diz nestas situações, pensava, enquanto se esforçava por aparentar a maior calma deste mundo.
Assim foi até à chegada do companheiro que dali seguiu para o hospital levando consigo o segredo das próximas horas.
"Agora mesmo, a desgraçada deve estar a sofrer murmurava e continuava a trabalhar. Será que já nasceu? Nada. Durante algumas horas nada. E ninguém ousa interferir, não naqueles momentos, não são para curiosidades que só empatam. Por isso restava esperar. Em poucos minutos criara-se uma rede de comunicações por sms entre amigos e conhecidos. Mas de notícias, nada.
Ao fim da noite, chegou o sms com a notícia: nasceu às 21h45. Estão ambos bem e com fome, ficarão no hospital até ao fim de semana. Uff que alívio, pensou e sorriu nervosa de felicidade. Que estranho, este ser veio ao mundo e eu estava lá quando tudo começou. Nunca esquecerei.
E foi dormir descansada.
Do outro lado da cidade, ela olhava aquele ser que já tinha nome. Não conseguia dormir e nunca mais nada voltaria a ser como dantes. Estava exausta e olhava.


2 Comments:
:))
:-) S
Enviar um comentário
<< Home