segunda-feira, abril 02, 2007

Na aparente calma do campo...

Conta-nos entusiasmado um vizinho, pessoa apaixonada pela história, homem de iniciativa cívica, que se descobriu uma lápide do século I AD para os lados de Salir de Matos . Salir de Matos é uma aldeia dos arredores das Caldas. Terra com direito a uma Junta de Freguesia e pouco mais situada numa região predominantemente agrícola, invadida nas últimas décadas pelos caldenses e lisboetas do sector terciário à procura de um talhão e casa que lhes encha as medidas.
O brilho nos olhos do nosso amigo acompanha a exposição dos factos a que não foi alheio.O Q. (chamar-lhe-ei assim) dedica o pouco tempo livre que tem a pesquisas históricas à memória esquecida destas colinas, aldeias e lugarejos. O fruto dessa carolice consta das crónicas que vai escrevendo na Gazeta das Caldas que cá em casa se lêem fielmente.
Aprendeu a tratar por tu a Torre do Tombo, à custa de muitas horas perdidas à espera de fotocópias, à custa de uma paciência infinita perante a inexistência de ajuda para quem quer encontrar uma referência naquele mar de pergaminhos. Mas ele lá vai, por amor à causa, por gosto claro, só assim se corre e não se cansa. Pelo caminho vai encontrando na Faculdade de Letras ali ao lado especialistas em epigrafia, latinistas, arqueólogos que o deixam cada vez mais entusiasmado.
O Q. trouxe duas especialistas que leram as inscrições na lápide. Procurou ele próprio registos históricos da mesma e encontrou, fruto da persistência e da sorte não se esquece de referir. A lápide devérá vir da povoação romana que se encontrava perto da actual Óbidos. Aí foi feita para um ilustre que não deixou descendencia. Utilizada nos séculos XVII ou XVIII como pedra para construcção foi parar ao edifício de um lagar antigo. Foi por ocasião da sua restauração e aproveitamento para Turismo de habitação que voltou à luz do dia , por sorte caindo nas mãos de quem lhe soube reconhecer o valor.
Porém, a sorte tem limites. Q. mexeu-se, investigou, suscitou o interesse mas não contou com a politiquice vesga e mesquinha.
A lápide encontra-se agora esquecida no cemitério de Salir de Matos onde a Junta decidiu mete-la na ausência duma decisão .
À proposta de colocá-la em frente à casa onde foi descoberta, com despesas assumidas pela proprietária, em espaço público naturalmente, reagiram interesses locais que só podem ter por alcance o horizonte do umbigo.
Q. conta esta última parte incrédulo mas não esmorece. Recorda a capela do Formigal (lugarejo das redondezas). Antiga capela com um conjunto de azulejos dos mais notáveis da época e que se encontra abandonada. Q. volta à carga, escreve as suas crónicas, não deixa cair no esquecimento, entusiasma-nos com a sua dedicação.
A lápide voltou a servir fins que não eram os seus. Pedra numa parede, pedra esquecida num cemitério, pedra no sapato de políticos locais enredados em tricas pequeninas.
Valha-nos o espírito cívico de Q. ...e a dureza da pedra, eterna e indiferente.

2 Comments:

Blogger Raimundo Narciso said...

Salir de Matos é o Salir na extremidade da baía de São Martinho do Porto?

quarta-feira, abril 11, 2007 2:30:00 da manhã  
Blogger S said...

Olá Raimundo,

Não, esse é Salir do Porto (de facto há vários "Salires" na região:-). Salir de Matos fica no Concelho das Caldas, a uns 8 km no sentido oposto à costa.

quarta-feira, abril 11, 2007 8:20:00 da tarde  

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