Depois...
...depois, no dia seguinte, que era segunda-feira, acordei, cedo até, como noutro dia qualquer. Eu continuava igual. Lá em casa tudo estava na mesma. E no entanto...
A consciência, a massa crítica, as mentalidades são noções abstractas. Correspondem a algo concreto, mas não as sentimos quando as dizemos. Que noção tenho eu de que a minha visão das coisas é partilhada ou não? E por quantas pessoas?
Se me sintonizásse mais vezes com o que realmente sinto saberia...E por isso desconfiava... as coisas mudam.
Quem consegue sair indiferente do contacto com os outros? Os outros entram-nos pela casa dentro. Andam nas nossas ruas, sentam-se à nossa mesa, bebem um copo, deitam-se na nossa cama, olham-nos nos écrãs do cinema, interpelam-nos no nosso inconsciente. Nós entramos nas ruas deles, nos livros deles, nas línguas deles e questionamo-los. Ponto de interrogação : E se o que eu penso for só o que eu penso, sem mais importância nem autoridade? E se outro é autónomo e não segue o meu caminho e nem por isso tem menos direitos?
Aos poucos vai-se a inocência cega, a inocência paralisante de quem se habituou a viver seguindo as ordens dum capataz. De quem mais não é que um executante. De quem vive passivamente à espera do próximo dogma, comesinho e pequenino, por aviltante que seja.
Aos poucos nascemos para a realidade. Aquela que é feia e injusta e bela e insólita. Onde temos de tomar a vida em mãos e geri-la, resolvê-la como o mundo é e não como gostávamos que fosse.
Aos poucos saímos da fantasia das grandezas e da pequenez, mas é só aos poucos.
Para já a lei do aborto será mudada. A mulher vê reconhecido o seu direito a ser responsável pelas suas decisões. Não há morais dum catolicismo retrógrado que entrem nos assuntos da cidade. Nem todos pensam assim, mas pensaram-no os suficientes. Nestas alturas reconheço a massa crítica, uma massa crítica, torna-se quase palpável e corre-me nas veias.
Não posso, nem quero ser doutro tempo. E há outros como eu. Sim:-)


3 Comments:
:-)
Gosto da lucidez deste post, boa semana
Olá habitante,
Obrigada pelo teu sorriso, Sofia:-)
Barão da Tróia,
Obrigada, escrevi o que sentia, ou tentei escrever o que sentia. Boa semana, Sofia :-)
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