Belgitude...

Kroll, cartoonista do Le Soir, diário belga, tem-se debruçado sobre a realidade do país numa série intitulada "Des flammands en Wallonie". Nesta série apresenta um grupo de turistas flamengos que do alto do seu autocarro vai comentando os estranhos valões (da Valónia, região francófona).
Neste caso específico, Kroll evoca o Carnaval de Binche, terriola perdida na região do Hainaut que reclama notoriedade por alturas do Carnaval. Por esta ocasião, assume o papel de Carnaval mais famoso da Bélgica, veste os seus ilustres conterrâneos com uma fatiota semelhante à do cartoon e depois é fartar vilanagem...segue-se uma chuva de laranjas arremessadas vigorosamente pelos foliões a tudo o que mexe...ou não.
O Hainaut é uma região belga considerada Obejctivo 1 ou seja receptora de fundos comunitários de coesão. Região "sinistrada" pelo fim da indústria mineira, confronta-se com inúmeros problemas socias: desemprego, toxicodependência, violência doméstica... . Até a Mafia italiana se diz que por lá vagueia. Trazida nas malas dos imigrantes italianos, encontrou terreno fértil na decadência económica do fim das minas e indústrias afins.
Essa reviravolta na economia do Hainaut na Valónia coincidiu com o crescimento económico da Flandres que da fama de "berças" camponesas, de língua improvável, dependentes do desenvolvimento da valónia, passou a dar cartas...e como! A Flandres é hoje mais rica, culturalmente mais arrojada...e paradoxalmente mais extremista (vide Vlaams Belang). Traz encravado o espinho do orgulho ferido por anos de sobranceria francófona.
Porém, nem tudo é caricatura, há valões que não ignoram ostensivamente a cultura flamenga, há flamengos que se orgulham de falar fluentemente flamengo e francês. O país funciona, não tão mal quanto isso, apesar do empenho de alguns políticos em envenenar as relações entre as duas comunidades.
Em Bruxelas, terceira região da Bélgica, vivem os bruxelenses. População bilingue, nos dias sim e unilingue francófona nos dias não. Há 50 anos a ser diluida por (já) mais de 20 000 expatriados alheios as estas tricas ainda que apanhados no meio delas. Anglófonos, lusófonos, todos os "ófonos" que puderem imaginar por aqui coabitam criando uma Europa a cada dia que passa... sobrevivendo a e usufruindo da belgitude...a cada dia que passa...também.


3 Comments:
O Kroll é sempre excelente! Contudo, a pergunta que põe os turistas a fazer relativamente aos foliões de Binche (que se explica pelo excelente enquadramento que fazes depois), também podia eu fazê-la relativamente a quaisquer foliões em qualquer parte do mundo...
:)
Beijola.
Olá Carlota,
Tens toda a razão!! Beijinhos,Sofia:-)
Post óptimo.
Parabens
Beijos
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