Presunção e água benta...
...pois é, este ditado aplica-se a todos nós, se bem que...Se bem que há profissões em que a presunção é "mortal" e a humildade "vital" para um bom desempenho. Imaginemos as profissões que lidam com a linguagem. Em que , por exemplo a língua portuguesa é a matéria que se manipula diariamente. Com ela se veícula uma mensagem, até mesmo quando se respeitam os seus silêncios. Sem ela nada se transmite, tudo é bruma e águas turvas...embora por vezes quem fala quer é bruma e águas turvas, mas isso é outra história.
A língua é uma matéria difícil porque os significados são convenções que evoluem com os tempos. Porque a mesma língua pode ser falada em regiões diferentes, por povos diferentes com pronúncias e vocabulário diferentes. Quem lida com ela com proximidade deve respeitá-la, amá-la até. Estas profissões costumam ser ingratas. Nunca se sabe tudo duma língua e quem pode jurar que nunca se engana, que nunca tem uma dúvida ou dá um erro? A ambição perfeccionista é por conseguinte fonte de frustração embora sedutora e necessária.
Só com humildade perante o carácter hercúleo da expressão "domínio de uma língua" se pode almejar o constante aperfeiçoamento e correcção. Caso contrário os erros perpetuam-se e cai-se mesmo na tentação de tomar por certo o que está errado.
Com o blog voltei à língua escrita. Por estranho que pareça, andei afastada da escrita regular da minha língua durante anos embora seja obrigada a fala-la diariamente. Possivelmente por pendor perfeccionista, acho que para aprender é necessário estar atento ao erro e sobretudo reconhece-lo, para corrigi-lo. Por estas páginas virtuais me apercebi do enferrujamento em que andava a minha ortografia, dando por vezes erros de palmatória. Que vergonha. Mas só assim os pude detectar. Aliás, nunca mais verei os erros crassos da comunidade imigrante da mesma forma. Sobretudo porque estão menos apetrechados do que eu para fazer face à intrusão da/s línguas estrangeiras que nos vão servindo de segunda casa.
E assim chego aquilo de que vos queria aqui falar. É que numa profissão em que a língua é fundamental há que não temer o dicionário. O dicionário, esse livro que alguns parecem votar a um esquecimento oportunista. Os mesmos, sim esses mesmos, que com grande desfaçatez e autoridade roubada aos decibéis mais acentuados corrigem e se riem do que está certo, sem pestanejar. Será esta a altivez dos ignorantes?... Mas não, não tenham medo do dicionário que ele não morde, não há memória de tal fenómeno. Nem hesitem em gastar-lhe os cantos. Tenham orgulho no seu ar manipulado e usado. É bom sinal. Não o queiram com ar de enciclopédia decorativa brilhante e imaculada.
Estas palavras serão lidas por quem já sabe e pensa assim. Elas nunca atingirão os neurónios úteis daqueles que delas carecem. Entenda-se, não é que não as tenham já ouvido. Acontece porém que mal o fonema ingenuamente atravessa o tímpano e acciona o impulso nervoso que o traduzirá em sentido num dos tais neurónios, surge no canal transmissor um muro de arrogância e presunção que lhe impõe um forçado ricochete, obrigando-o a sair pelo ouvido contrário. Entram por um e saem por outro...
Há pessoas demasiado cheias de insegurança de si mesmas para deixar entrar a dúvida sã e o conhecimento.


8 Comments:
Sofia.. o meu comentário.. não precisa ser um comentário.
Pôde nunca existir.
- Durante os meus tempos de escola: não lia, não escrevia.. limitava-me a ser um estudante no médio para passar à próxima etapa.
Um dia, acabou-se o dito 12º Ano.
Explodi. Escrevia como se tivesse lava a correr das mãos.
E lia todos os pedaços de papel que encontrava.
Era uma necessidade inexplicável.
Não pensava, simplesmente fazia.
- Engraçado: os meus pais foram professores de português, latim, grego clássico e francês.
Mas eu era como diz o ditado: em casa de ferreiro, espeto de pau.
Tinha 19 - 20 anos quando percebi o que poderia ser ou era escrever.
Aprender a escrever: corrigir erros... que nunca foram embora.. Deficiências de expressão. Etc.
E Descobrir a delícia do dicionário [ o mesmo que ainda utilizo ], dos dicionários - de verbos, de sinónimos e que estão sempre comigo. Do prontuário.
Eu aprendi durante muitos anos e convenci-me que não era capaz de escrever.
Hoje, e só hoje é que percebo: que me vai levar a vida inteira.
Escrevo também de outras formas: em imagem e em som.
Mas como a escrita, tem sido igualmente um processo solitário.
A tentar.
A ver como faço. A fazer a refazer a refazer a refazer.
E olhar os outros como são capazes de o fazer, muito bem.
Tenho muita coisa que gostava de dizer através da escrita.
Não o faço porque ainda não sou capaz.
O que me traz, por vezes, um certo desespero.
[ e já tenho a foto para ti... só que estou com alguns problemas técnicos.. é capaz de demorar ]
Boa Semana.
Sofia
O que mais me aflige é a limitação de vocabulário que sinto! Como se faltassem palavras à língua... só que me faltam a mim!
Beijos
Bom dia Habitante,
Gosto de ler o que escreves porque sinto na tua escrita uma necessidade de escrever, de usar e experimentar com a palavra. E nunca se diz exactamente a realidade, não é? O desespero é inevitável, mas felizmente não desesperas ao ponto de parar, gosto muito do que escreves. Quanto à foto, é quando quiseres,seja eu capaz de o fazer...;-) Sofia
Pitucha,
Como te entendo:-) Às vezes sinto que estou sempre a usar as mesmas palavras. Quando volto de Portugal a coisa atenua-se e quando estou com um/a compatriota recém-chegado/a sugo-lhe o vocabulário espontaneamente variado como um vampiro;-)beijos,Sofia
O domínio da nossa língua é um pouco como o da matemática ou da música: exige treino, dedicação e gosto. Eu confesso que sou preguiçosa, mas lá me vou esforçando e corrigindo (não me preocupa nada que me apontem os meus errositos, nem escritos nem falados).
"E nunca se diz exactamente a realidade, não é?"
......................creio que nunca, sim.
- Sem exageros que te digo que és já parte do meu dia.
Nokas,
É a melhor atitude ou não fosses tu uma mulher das ciências. Eu então convivo quase diariamente com uma espécie de mamíferos que só têm certezas e nem concebem o erro,talvez um caso para estudo,lol! Beijinhos,Sofia
Nem vais acreditar! Depois de escrever, à noite na cama lembrei-me e pensei: errositos é com S ou com Z? Aiiii! Eu ia escrever erros e depois quis pôr pequenitos e depois acrescentei.... E, novamente a preguiça, ainda não confirmei qual das opções é! Mas agora vou lanchar! :p
Nokas,
Não te preocupes com isso:-)Na realidade o meu post era sobre pessoas que pensam saber tudo e corrigem supostos erros alheios ,apoiados apenas nas suas infinitas sabedorias , e num tom peremptório que só ouvido...nada de confirmar no dicionário, não vá ele mostrar-lhes que não têm razão. Eu aqui neste blog já tenho dado erros...ui,ui nem quero pensar nisso, mas reconheço-os e mais tarde ou mais cedo vou verificar no dico. E agora para ser franca deixáste-me com a pulga atrás da orelha (a língua portuguesa é muito gira,lol). Em princípio diria que é com "Z" mas o melhor é ir verificar. Beijos,Sofia
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