"Mots Croisés"
É o nome do programa de debate político na France 2 que acabou agora mesmo. Tema da noite, claro: "A França é também alvo de Terrorismo?" Ontem era 11 de Setembro, aos políticos e cadeias de televisão convinha pôr um ar sério e de pesar pelas vítimas, como se elas só morressem uma vez por ano ou como se os doentes e incapacitados das acções de salvamento da época pudessem viver com a mísera atenção que lhes deram hoje. Bush abraça-se a uma viúva, e pronto está tudo bem. Afinal ele até anda a combater "O Mal" lá pelo Iraque e Afganistão, não é?
Mas voltando ao programa da France 2, a primeira pergunta que me coloco é: porque é que eu ainda me dou ao trabalho de ver franceses aos gritos e a falarem todos ao mesmo tempo, com um moderador do mais parvo que se tem arranjado que faz shhht, shhht de 10 em 10 segundos para calar alguns (juro que isto é verdade).
Mas voltando ao programa da France 2, a primeira pergunta que me coloco é: porque é que eu ainda me dou ao trabalho de ver franceses aos gritos e a falarem todos ao mesmo tempo, com um moderador do mais parvo que se tem arranjado que faz shhht, shhht de 10 em 10 segundos para calar alguns (juro que isto é verdade).
Depois, estava lá o Bernard Kouchner, grande actor, político até debaixo de água, dando uma no cravo outra na ferradura:" Sim temos de nos lembrar dos pobres, mas a nossa polícia faz um excelente trabalho e afinal somos vítimas do fundametalismo islâmico que surge lá nas terras deles e não temos culpa nenhuma". Mas o moderador não quer saber disso para nada, ele quer é sangue, não, ele quer é um pódio. O pódio da maior vítima. Afinal, os franceses também são alvo como os americanos? Ao que um juíz de terrorismo e um inspector tentam responder sem sensacionalismo, justiça lhes seja feita. Ele continua, então mas nós também, até tivemos o airbus em 95, nós afinal fomos vítimas antes dos americanos. Somos também muito alvo. E por isso estamos mais bem preparados.
O inspector tenta explicar-lhe que , neste contexto, a França é uma perspectiva ultrapassada temos de pensar em termos de cooperação europeia e que os franceses são tão alvo como os outros europeus. Mas ele não desiste, e não somos mais? Não, insiste o outro. E quais são as ameaças, são químicas, biológicas? Alguém resolve falar do background histórico. Da chegada dos emigrantes muçulmanos a França, da sua integração, da integração falhada de apenas 13% (87% aderem aos valores da república) da 3ª geração e porquê. Mas ele, volta à carga, que tipo de armas, e a qualquer momento?Os franceses querem saber, argumenta. E quais são o alvos? Escolas, hospitais... Conclui, ahhh estamos perante uma relação de forças...bingooo! tenho vontade de gritar, ao fim destes anos todos chegou à conclusão certa,uffff, quanto lhe pagarão?
À volta da mesa 6 homens e 1 mulher. Dos seis vem à baila de tempos a tempos o choque cultural, o fim da sociedade patriarcal, o papel da mulher na sociedade moderna que alguns jovens e menos jovens não conseguem aceitar.Repito, 6 homens e 1 mulher, caso não se tenham apercebido da desproporção.E lá vão explicando, que os jovens franceses recrutados não conseguem aceitar o papel da mulher emancipada da nossa sociedade... sociedade essa onde 6 homens dizem a 1 mulher (repórter com várias reportagens na região) que não devia pôr o véu quando entrevista um radical no terreno, porque é uma questão de princípio. Ela responde naturalmente que respeita a cultura do país onde se desloca, que se todos fizessem assim... Cortam-lhe a palavra...well, como é que era, jovens desenraízados que não se revêm numa sociedade em que o pai está desempregado e a irmã é que vinga, que não aceitam uma sociedade que não é patriarcal? Que não é o quê?
Ela lá tenta outravez: É preciso perceber que os fundamentalistas encontram adeptos porque o Ocidente para eles é todo igual, como para nós muçulmano=terrorista. Ou seja, preconceitos dos dois lados. Que somos vistos como arrogantes, exploradores, colonialistas... Que essa imagem tem de mudar se não, não há polícia que nos valha. É preciso educação, respeito. Nas reportagens que fez teve ocasião de explicar a universitários e combatentes a lei do véu em França. Perceberam e afirmaram que tinham uma ideia errada. Falta diálogo. Grande frustração e desconfiança por parte de quem não tem uma chance ou se sente discriminado. Depois, o trabalho é fácil para as Al-Qaedas deste mundo, infelizmente. Mas isto, o moderador não quer ouvir... "não me venha dizer que a culpa é nossa". E toca de voltar à vaca fria, mas afinal, qual o nível de alerta? Constantemente elevado? Sim, respondem-lhe. E qual é o retrato do terrorrista-tipo? Não existe, pode ter qualquer aspecto, o barbudo com djellabah já foi chão que deu uvas. Ele fica descoroçoado, nem o retrato robô lhe dão.
Kouchner ainda se lembrou da guerra no Iraque a atiçar recrutamentos, a coisa não foi longe. Metia muita explicação e era menos, com hei-de dizer...impressionante.
A repórter lá disse que acha a luta anti-terrorista um bluff perante a amplitude do que sentiu nos países muçulmanos. O moderador quase que lhe lançava as garras. Kouchner, ao bom estilo vira casacas, tanto a apoiava como a seguir lambia elogios aos inspector e ao juíz. Esses, habituados à dura realidade, tiveram o bom senso de não cair na esparrela e de conciliar a sua posição com a da repórter, recordando que face ao terrorismo é precisa a polícia e serviços de informação, mas é necessário um trabalho de fundo que deveria ser feito pelos políticos. Aiiii, Kouchner sentiu-se visado.
Hoje é dia 12 de Setembro e vítimas são vítimas mesmo sem efémerides. Sossegamos a consciência com cerimónias reportagens de empreitada e depois? No Iraque há atentados todos os dias, no Sudão, na Índia, to quote but a few. Alguém tenta explicar que é no respeito mútuo que se constrói a confiança. Com ela os Ben Ladens nada podem. Mas quem ouve esta mensagem? Ela não interessa, não é securitária, não dá votos nem calma imediata. Implica mudar o jogo de forças em que estamos. Implica mudar, deixarmos de nos ver como exemplo, como dadores de lições. Assumirmos o nosso papel no mundo, assumirmos as nossas responsabilidades, as repercussões de quem elegemos. Não esquecer que ao lado das nossas vidas, felizmente despreocupadas vive um mundo imenso na miséria ou quase.
Para além disso somos ínfimos, o Sol nasce todos os dias e é belo, os bichos acasalam, os planetas giram, umas estrelas morrem e outras nascem e estão a borrifar-se para nós e para as nossas teimosias e joguinhos de poder. A menos que nosso afã poluidor demos cabo do planeta e o arrastemos connosco no nosso declínio. Ficaríamos para a história não escrita como o bicho menos inteligente que jamais o habitou.


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